No futebol brasileiro, a palavra “reconstrução” costuma ser usada por times que caíram para a Série B ou perderam todo o elenco. No Atlético-MG, porém, ela virou um estado permanente de espírito. Mesmo com um dos elencos mais caros do país, casa nova e a contratação de peso de Mateo Cassierra, o Galo iniciou 2026 patinando: quatro jogos, quatro empates e nenhuma vitória no Mineiro.
O problema vai além do campo. O clube vive um paradoxo cruel: precisa vencer “ontem” para justificar o investimento, mas carrega uma dívida de R$ 1,8 bilhão que exige austeridade. Nesse cenário, a volta de Jorge Sampaoli (com contrato até 2027) não é apenas uma escolha técnica; é a tentativa desesperada de um “reset” emocional que, historicamente, cobra um preço alto.
O Peso da Dívida: R$ 1,8 Bilhão
A SAF do Galo é transparente sobre o buraco financeiro. O CEO Pedro Daniel citou uma dívida global de R$ 1,8 bilhão, com uma urgência de equacionar R$ 500 milhões no curto prazo.
- O Efeito no Campo: Quando o boleto aperta, o futebol perde a paz. Cada jogo sem vitória não é apenas um tropeço esportivo; é visto como ameaça ao fluxo de caixa. O time joga com a faca no pescoço, transformando a Arena MRV em um ambiente de ansiedade, não de apoio.
Sampaoli: O Salvador ou o Caos?
Trazer Sampaoli de volta foi a cartada para “sacudir” o vestiário. O argentino é sinônimo de intensidade e exigência. Mas ele também é sinônimo de mudança drástica.
- O Ciclo Vicioso: Sampaoli não pega um trabalho; ele reinventa o trabalho. Isso significa que o elenco anterior nunca serve. O clube precisa ir ao mercado (como foi buscar Cassierra, Lodi, Preciado) e “recomeçar” o time do zero. Resultado: o Atlético nunca tem um time pronto, tem sempre um “projeto em andamento”.
Elenco vs. Time: A Ilusão dos Nomes

O Atlético anunciou cinco reforços de peso em janeiro, seguidos pelo investimento milionário no camisa 9 colombiano. No papel, é um esquadrão. Na prática, é um canteiro de obras. A estatística recente assusta: somando o fim de 2025 e o início de 2026, o Galo venceu apenas uma vez nos últimos 10 jogos. Isso prova que empilhar talentos não cria um time automaticamente. Falta a “cola” — aquela que só vem com tempo, repetição e estabilidade, três coisas que a “reconstrução eterna” não permite.
Arena MRV: O Termômetro Quebrou
A casa nova deveria ser fortaleza. Hoje, é amplificador de pressão. O torcedor vai ao estádio esperando ver o “super time” atropelar. Quando o gol demora, a impaciência desce da arquibancada. O Atlético precisa urgentemente transformar a Arena em um local de segurança psicológica para os atletas, ou o mando de campo continuará sendo um “adversário íntimo”.