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A SAF do Atlético não é a inimiga: crise e saída de Fábio do Cruzeiro também foi traumática

Há um padrão que se repete em todo clube que entra em SAF com problemas estruturais: a primeira grande decisão impopular vira gatilho para a torcida apontar o dedo para o “modelo”. No Cruzeiro, esse gatilho teve nome, rosto e história: Fábio. No Atlético, o debate hoje passa por dívida, credibilidade no mercado e necessidade de reorganização — e, como quase sempre, isso exige escolhas que não são populares no curto prazo.

A tese deste texto é simples: criticar decisões pontuais é legítimo; transformar a SAF no inimigo, não. Porque, goste-se ou não, o Atlético está numa etapa em que o clube precisa atacar o que o próprio acionista chama de “dívida ruim” (na casa de R$ 500 milhões) para parar de “enxugar gelo”.

O futebol brasileiro passa por dificuldades: o Corinthians está caótico, o Vasco quase quebrando, São Paulo nas páginas policiais, Santos quase rebaixado mesmo com Neymar e Botafogo, em Transfer Ban. O Galo está ruim, mas é o único que tem um plano pra sair dessa. Ao mesmo tempo, a própria SAF precisa parar de criar um clima de “nós contra eles”.

O “efeito Fábio”: quando a torcida explode, o clube costuma estar mudando (para sobreviver)

Quando Ronaldo assumiu a SAF do Cruzeiro, o clube iniciou 2022 em modo de corte e reorganização — e a primeira grande ruptura simbólica foi a saída do goleiro. Fábio anunciou que não seguiria após o fim do contrato e disse que a nova gestão ofereceu um vínculo curto (três meses) e que “não contavam” com ele nos moldes que ele esperava.

A reação foi imediata: torcedores se revoltaram nas redes e a saída virou um dos primeiros episódios de desgaste público da SAF recém-implantada — num momento em que, como o próprio ge destacou, Ronaldo havia comprado as ações há menos de um mês e a gestão promovia mudanças bruscas.

A leitura emocional do torcedor era óbvia: “estão desmontando a história”. A leitura de gestão era outra: “há um teto financeiro e um novo padrão de contrato”.

O que veio depois: o Cruzeiro passou pelo vale e voltou a respirar

O ponto central da comparação é que o Cruzeiro atravessou o choque inicial e, ao fim de 2022, o enredo já era outro: o clube terminou campeão da Série B, em um ano que o ge define como de “pioneirismo” e de superação de incertezas e polêmicas sob a SAF.

Mais tarde, quando Ronaldo vendeu o controle da SAF, a avaliação externa sobre o período reforçou essa linha de reestruturação: a Reuters relatou que, durante a gestão, houve esforço para recuperar credibilidade, profissionalizar a administração e viabilizar a volta à Série A.

Ou seja: aquela decisão traumática (Fábio) não “provava” que a SAF era ruim — provava que a fase era de mudança dura.

O Atlético está numa etapa parecida — só que com outra escala de pressão

O problema é que, do lado esportivo, a cobrança no Atlético é sempre por título imediato — enquanto, do lado financeiro, o clube vive um debate público sobre endividamento e reputação de pagamento, que afeta negociação, mercado e montagem de elenco.

Defender a SAF não é passar pano: é entender para onde ela aponta

Defender a SAF do Atlético, aqui, significa defender três ideias que costumam ser impopulares em clube gigante:

  1. Reestruturação tem custo político
    No Cruzeiro, custou o desgaste da saída do maior ídolo recente.
    No Atlético, custa admitir que existe um nó financeiro que precisa ser atacado antes de prometer “elenco de videogame” todo ano.
  2. Sem credibilidade, o mercado cobra juros esportivos
    Quando o clube vira sinônimo de parcelamento e atraso, cada negociação fica mais cara (em dinheiro, prazo e paciência). O próprio ge registrou essa preocupação como pauta interna e pública da nova gestão executiva.
  3. A SAF permite planejamento de médio prazo que a associação raramente sustenta
    O Atlético, por exemplo, vem comunicando projetos e reuniões estratégicas de investimento em estrutura e base dentro do guarda-chuva SAF — um tipo de agenda que, historicamente, sofre quando a política do clube “come” o orçamento.

A lição prática do Cruzeiro para o Atlético: o que desorganiza hoje pode estabilizar amanhã

O Cruzeiro viveu uma ruptura simbólica (Fábio) em plena reorganização; a torcida explodiu, Ronaldo foi alvo, e a SAF seguiu — com um ano que terminou em resultado esportivo e reordenação do clube.

O Atlético, agora, parece estar no ponto em que precisa escolher entre:

  • agradar no curto prazo e empurrar a dívida, ou
  • encarar o ajuste, recuperar credibilidade e voltar a disputar no topo com sustentabilidade.

Essa é a parte que a arquibancada odeia ouvir, mas que a história recente do futebol brasileiro tem confirmado: clube grande não “vira potência” por gastar mais — vira potência por conseguir gastar certo, pagar em dia e repetir processo.

SAF do Atlético não é a Inimiga do Torcedor

A SAF do Atlético não é uma blindagem contra erro — é uma tentativa de blindagem contra colapso. A comparação com o Cruzeiro é didática justamente porque mostra o preço: quando a reestruturação começa, ela costuma “cortar na carne” e mexer com símbolos. No Cruzeiro, foi Fábio. No Galo, talvez seja o Hulk.

No Atlético, pode ser a frustração de não atacar o mercado como o torcedor sonha enquanto existe um passivo que corrói o clube por dentro. A pergunta que a Massa precisa fazer não é “quem é o vilão do mês?”. É: “qual modelo me dá chance real de competir por muitos anos sem voltar para a beira do abismo?”. Hoje, goste-se ou não, essa resposta passa pela SAF — com cobrança, transparência e metas claras, não com fogo amigo. Concorda?

Esportes Redação
Esportes Redação
Jornalista esportivos que trabalham há mais de 15 anos na cobertura diária dos principais clubes brasileiros, com foco em Atlético, Cruzeiro, Flamengo, Palmeiras, Corinthians e Botafogo.