A crise da Casas Bahia afetou a receita da mineira Méliuz no terceiro trimestre de 2026 e levou a empresa a reconhecer perdas esperadas sobre valores a receber da varejista. Segundo a plataforma de cashback, a receita líquida consolidada poderia ter sido aproximadamente R$ 15 milhões maior se as comissões da parceria tivessem repetido o patamar do mesmo período de 2025.
A estimativa consta do relatório de resultados do terceiro trimestre, divulgado nesta quarta-feira (4). A companhia registrou R$ 96,1 milhões em receita líquida, queda de 22,3% na comparação anual, e calculou que o valor chegaria a R$ 111,1 milhões naquele cenário.
O número representa uma comparação com as comissões geradas um ano antes, e não uma dívida de R$ 15 milhões deixada pela Casas Bahia. Separadamente, a Méliuz constituiu uma provisão de R$ 14 milhões relacionada ao risco de não receber créditos já existentes.
Crise da parceira explica parte da queda
Mesmo no cenário apresentado pela Méliuz, a receita permaneceria abaixo dos R$ 123,7 milhões registrados no terceiro trimestre de 2025. Pelos valores divulgados, os R$ 111,1 milhões estimados representariam uma redução de aproximadamente 10,2% na comparação anual.
A diferença mostra que a situação da Casas Bahia foi um componente relevante da retração, mas não sua única causa. A companhia também atribuiu o desempenho à mudança na participação dos diferentes parceiros nas vendas, a efeitos não recorrentes que elevaram a base de comparação e à desaceleração do varejo.
No comércio eletrônico, a receita líquida caiu 35,3%, para R$ 50,4 milhões. É nessa operação que a Méliuz recebe comissões por direcionar consumidores às lojas parceiras, devolvendo parte dos recursos aos usuários na forma de cashback.
Como a dificuldade da varejista chega ao cashback
O modelo depende das compras realizadas pelos consumidores e das condições comerciais acertadas com cada loja. Quando uma parceria relevante é interrompida, a plataforma perde uma fonte de comissões, mesmo que parte dos usuários continue comprando em outros estabelecimentos.
Segundo o relatório, a parceria com a Casas Bahia foi interrompida durante o trimestre, após o pedido de recuperação judicial da varejista em agosto. A empresa relaciona esse episódio tanto à redução das receitas quanto ao aumento do risco sobre recebíveis.
A Méliuz, porém, informou que o número de compradores do comércio eletrônico cresceu 9,7% na comparação anual. O dado indica que a queda da receita ocorreu mesmo com expansão da base compradora, em um período de mudança na distribuição das vendas entre os parceiros.
Provisão de R$ 14 milhões tem efeito diferente
A provisão registrada no balanço corresponde a uma estimativa de perda sobre dinheiro que a Méliuz já tinha a receber da Casas Bahia. Esse lançamento reconhece contabilmente o risco de inadimplência, sem significar, por si só, que a totalidade dos créditos esteja definitivamente perdida.
Houve também um efeito compensatório: a companhia estornou R$ 3,8 milhões em provisões de cashback vinculadas às comissões da parceira. Com isso, o impacto extraordinário líquido desses lançamentos ficou negativo em aproximadamente R$ 10,2 milhões.
Essa conta é distinta da estimativa de R$ 15 milhões em receita potencial. Somar os dois valores e apresentar o resultado como um prejuízo único misturaria uma comparação hipotética de receitas com uma despesa efetivamente reconhecida no balanço.
Lucro contábil cresce com bitcoin e tributos diferidos
Apesar da queda de receita, a Méliuz registrou lucro líquido contábil de R$ 113,7 milhões, alta de 700,9% sobre o terceiro trimestre de 2025. O avanço foi influenciado por efeitos extraordinários que não correspondem à geração recorrente de receita da plataforma.
Entre eles está a reversão de R$ 78,5 milhões de perdas anteriormente reconhecidas sobre os bitcoins mantidos pela companhia. Segundo a Méliuz, esse efeito contábil não representou entrada de dinheiro no caixa; o resultado também incorporou R$ 25,8 milhões em tributos diferidos após a incorporação da Alter.
Excluindo os itens classificados pela empresa como extraordinários, o lucro líquido ajustado foi de R$ 19,6 milhões, crescimento de 28,4%. Já o EBITDA ajustado, indicador do resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização, recuou 37,7%, para R$ 17 milhões, refletindo principalmente a menor receita do comércio eletrônico.


