Antes de desenvolver inteligência artificial para conversas entre empresas e consumidores, a Blip empregava músicos para produzir toques de celular em Belo Horizonte. Em 2004, quando ainda se chamava Take, dez dos seus 80 funcionários trabalhavam com música, e a companhia chegou a manter um estúdio que produzia mais de mil ringtones por ano.
O negócio mudou junto com os hábitos de quem usava o telefone. Duas décadas depois, em 2024, a empresa mineira captou US$ 60 milhões em uma rodada liderada pelo SoftBank e com participação da Microsoft, já voltada à tecnologia que permite às marcas atender, vender e se relacionar com clientes por aplicativos de mensagens.
O primeiro negócio era um quiosque na UFMG
A trajetória começou em 1997, quando Roberto Oliveira, Daniel Costa e Antônio Oliveira abriram a Take Phone, revendedora de celulares em um quiosque no campus da Universidade Federal de Minas Gerais. A operação cresceu para dez lojas e ganhou uma assistência técnica autorizada da Nokia, que chegou a consertar 20 mil aparelhos em um único mês.
A Take.net surgiu em julho de 1999, quando a possibilidade de conectar celulares à internet abriu espaço para outros serviços. A empresa passou a desenvolver soluções para telefonia móvel e encontrou nos toques musicais uma oportunidade de vender conteúdo para quem queria personalizar o aparelho.
Uma mensagem bastava para comprar o toque
A plataforma RingRing permitia solicitar músicas por SMS, simplificando uma compra que costumava exigir códigos específicos. Segundo o histórico publicado pela própria Blip, o sistema identificava o pedido pelo nome da música, informava o preço e enviava o ringtone após a autorização do consumidor.
Por trás da personalização havia uma operação de produção e distribuição de conteúdo. Os músicos adaptavam as canções, enquanto a plataforma conectava o catálogo aos serviços das operadoras e organizava a entrega para os aparelhos.
O crescimento levou à venda da empresa ao grupo japonês Faith, em 2005. Os fundadores recompraram o negócio em 2008, em um mercado que já enfrentava mudanças: aparelhos com novos recursos facilitavam o uso de músicas como toque, reduzindo o espaço para o modelo anterior.
Dos ringtones às conversas com empresas
A transição passou pelos serviços de SMS e, depois, pelos aplicativos de mensagens. Em um relato sobre a trajetória da companhia, Roberto Oliveira explicou que, em 2014, a equipe identificou o avanço de ferramentas como o WhatsApp sobre o mercado de mensagens de texto e começou a preparar outra mudança.
Entre 2015 e 2016, veio o lançamento da solução Blip, voltada aos chatbots, sistemas que automatizam conversas em canais digitais. O conhecimento acumulado na integração entre mensagens e serviços passou a sustentar ferramentas de atendimento, vendas, cobranças e distribuição de conteúdo para empresas.
A captação de US$ 60 milhões, em 2024, representou uma nova etapa dessa transformação. No mesmo período, a Blip anunciou uma colaboração estratégica de cinco anos com a Microsoft, destinada ao desenvolvimento da plataforma, à infraestrutura tecnológica e à capacitação das equipes.
O que os números da inteligência artificial mostram
Em fevereiro de 2025, a Microsoft informou que a arquitetura da Blip processava mais de 1 bilhão de mensagens por mês e acumulava um histórico superior a 80 bilhões. O relato sobre o uso do Azure OpenAI Service descreveu a aplicação da inteligência artificial para apoiar o atendimento e integrar informações de diferentes fontes.
Um dos exemplos era o assistente que sugere respostas aos profissionais responsáveis pelo suporte. Segundo Sérgio Passos, diretor de tecnologia da Blip, a aceitação dessas sugestões começou entre 20% e 30% e chegou a 80%: “Agora, essa taxa de aceitação é de 80%”, afirmou na publicação.
O indicador mede quantas sugestões foram aceitas pelos atendentes, e não uma taxa geral de precisão da inteligência artificial. A distinção ajuda a entender o resultado apresentado: a ferramenta passou a ser mais aproveitada pelos profissionais, mas o dado, isoladamente, não informa quanto tempo cada atendimento economizou nem se todas as respostas estavam corretas.


