A Samarco encerrou o terceiro trimestre de 2026 com o pé no acelerador em suas minas, mas enfrentou um gargalo na ponta comercial da operação. Dados operacionais divulgados na manhã desta terça-feira (20) pela anglo-australiana BHP apontam que, entre julho e setembro, o volume de minério de ferro extraído e processado pela companhia mineira cresceu 4% na comparação anual. O volume vendido aos clientes, no entanto, recuou 5% no mesmo período.
Os números constam no anexo do relatório trimestral de produção global da BHP. Como a multinacional detém 50% do capital social da Samarco, dividindo o controle igualitariamente com a brasileira Vale, a empresa reporta ao mercado internacional exatamente a metade dos volumes operacionais da mineradora localizada em Minas Gerais.
Com a queda nas vendas, mais um prejuízo é esperado pelo mercado financeiro. No total acumulado desde 2025, o prejuízo passa de 6 bilhões de dólares.
A matemática da produção e o gap nas vendas
No trimestre encerrado em setembro, a BHP registrou 2,151 milhões de toneladas secas de produção atribuível à sua fatia no negócio. Convertendo esse dado para a base integral (100% da Samarco), o volume total produzido atingiu aproximadamente 4,302 milhões de toneladas. No mesmo período do ano passado, esse número havia ficado na casa de 4,132 milhões.
O salto é ainda mais expressivo na comparação trimestral. Entre abril e junho deste ano, a produção integral havia sido de 3,9 milhões de toneladas. O avanço sequencial de 10% consolida o mês de setembro como o pico produtivo da Samarco nos últimos cinco trimestres reportados pela BHP, reflexo direto do ganho de eficiência técnica nos concentradores.
O comportamento comercial, porém, seguiu uma trajetória inversa. A parcela de vendas atribuível à BHP caiu de 2,042 milhões de toneladas (3T25) para 1,941 milhão agora (3T26).
O descompasso trimestral deixou uma diferença aritmética de 420 mil toneladas entre o que foi produzido e o que foi efetivamente comercializado.
Prejuízos da Samarco por trimeste:
- 1T25: prejuízo de US$ 1,519 bilhão.
- 2T25: US$ 1,689 bilhão.
- 3T25: US$ 1,045 bilhão.
- 4T25: US$ 359 milhões.
- 1T26: US$ 1,118 bilhão.
- 2T26: US$ 328,5 milhões.
Mais de 1 milhão de toneladas de diferença no ano
A retração nas vendas chama a atenção do mercado porque interrompe uma forte trajetória de recuperação. No segundo trimestre, a Samarco havia comemorado uma alta de 23% na comercialização (em relação aos três primeiros meses do ano), atingindo um equilíbrio quase perfeito entre o que saía da mina e o que embarcava nos navios.
Ao consolidar os dados de janeiro a setembro de 2026, a produção da Samarco soma cerca de 11,97 milhões de toneladas, enquanto as vendas estacionaram na marca de 10,96 milhões. A diferença acumulada no ano já supera a barreira de 1 milhão de toneladas.
Na mineração, esse descasamento volumétrico não atesta obrigatoriamente um “encalhe” comercial (falta de compradores). A diferença pode ser explicada por fatores logísticos transitórios, atrasos no cronograma de navios nos portos, um rearranjo no mix de produtos (pelotas versus pellet feed) ou a decisão estratégica de formar estoques de transição. A justificativa exata, bem como o impacto desse capital de giro retido nos pátios, só será conhecida na divulgação do balanço financeiro da empresa.
Metas anuais e a expansão para 100% da capacidade
Apesar do descompasso comercial, a Samarco caminha com margem de segurança para entregar sua promessa produtiva de 2026. A companhia mantém a meta oficial de produzir entre 14,7 milhões e 15,4 milhões de toneladas no ano. Com quase 12 milhões já garantidos até setembro, a mineradora precisa extrair apenas entre 2,7 e 3,4 milhões de toneladas no quarto trimestre — um sarrafo inferior ao volume que acabou de entregar no 3T26.
A capacidade de escoar o minério produzido será o teste de fogo para o futuro da companhia. Atualmente, a Samarco opera com cerca de 60% de sua capacidade instalada, limitando a oferta global. A empresa está no meio de um ciclo bilionário de investimentos orçado em R$ 13,8 bilhões.
O aporte tem data e alvo definidos: reativar o Concentrador 1 no Complexo de Germano (Mariana/MG) e religar duas usinas de pelotização no porto de Ubu (Anchieta/ES), permitindo que a mineradora volte a operar com 100% de sua capacidade em 2028, atingindo o patamar de 26 milhões de toneladas anuais.
Os acionistas e o mercado financeiro terão o quadro completo dessa equação no dia 9 de novembro, data em que a Samarco publicará suas demonstrações contábeis e realizará a teleconferência do 3T26.


