A origem da Buser, uma das maiores plataformas de mobilidade rodoviária do Brasil não envolveu complexos laboratórios de tecnologia ou grandes teses de investimento iniciais, mas uma planilha doméstica de custos para um casamento. Em novembro de 2016, o belo-horizontino Marcelo Abritta precisava organizar o deslocamento de cerca de 30 familiares de Minas Gerais para Arraial d’Ajuda, na Bahia, onde celebraria a união.
Como parte do grupo não havia comprado bilhetes aéreos com antecedência e os preços estavam proibitivos, a alternativa lógica seria a viagem de ônibus. Ao cruzar os orçamentos, Abritta deparou-se com uma falha de eficiência no mercado de transporte de passageiros: fretar um veículo executivo de 48 lugares, mantê-lo parado na Bahia por quatro dias e bancar a hospedagem do motorista saía mais barato do que comprar 30 passagens de linha na viação regular que operava o trajeto.
A percepção de que o modelo tradicional cobrava um prêmio excessivo sobre os assentos vazios formou a premissa do negócio: se um grupo familiar conseguia ratear os custos e viajar de forma mais econômica, o mesmo princípio poderia ser aplicado a desconhecidos unidos pela tecnologia.
A conexão em Belo Horizonte e o teste no Facebook
Com a ideia de aplicar o conceito de fretamento colaborativo no país, Abritta levou o modelo de negócios até Marcelo Vasconcellos, um amigo dos tempos de colégio em Belo Horizonte com forte experiência no mercado financeiro. Nos primeiros meses de 2017, a dupla mergulhou na cotação de frotas e mapeamento de rotas, validando que a economia gerada pela lotação do veículo sustentaria a operação.
A Buser não nasceu como um aplicativo robusto. Em 2 de junho de 2017, o negócio foi lançado como uma simples página no Facebook para testar a adesão orgânica. A resposta expôs a demanda reprimida do setor: a página atraiu 10 mil seguidores em menos de 30 dias. O salto definitivo para 15 mil interessados ocorreu após uma reportagem de um veículo local de Ipatinga explicar o modelo da recém-criada startup.
O primeiro revés e a atração de capital

A primeira viagem oficial da plataforma, agendada para 7 de julho de 2017 com destino a Ipatinga, não chegou a sair da garagem. Uma medida judicial movida por empresas tradicionais impediu o fretamento. Em vez de encerrar a operação, a Buser reembolsou os passageiros, providenciou transportes alternativos e utilizou a barreira judicial como alavanca de visibilidade na imprensa nacional, expondo a reserva de mercado.
A tração da proposta atraiu rapidamente o ecossistema de Venture Capital.
- Primeiros passos: A empresa captou aportes iniciais de fundos como Canary, Yellow Ventures e Fundação Estudar Alumni Partners.
- A escalada (2019): A startup anunciou uma rodada liderada pelo fundo latino-americano do SoftBank, acompanhada por pesos-pesados como Monashees, Valor Capital e Grupo Globo.
- A consolidação (2021): O negócio atingiu uma nova dimensão ao levantar R$ 700 milhões em uma rodada liderada pela LGT Lightrock, pavimentando a expansão para centenas de municípios.
O peso estratégico de Minas Gerais
Apesar de ter alçado voos nacionais, atingindo a marca atual de 10 milhões de clientes cadastrados, 945 cidades conectadas e mais de 300 empresas de fretamento parceiras, Minas Gerais manteve-se como o motor operacional da Buser.
As conexões Belo Horizonte–São Paulo e Belo Horizonte–Rio de Janeiro formaram as rotas comerciais basilares que sustentaram a demanda da companhia em seus anos de estruturação. A relevância do mercado mineiro foi reiterada em 2021, quando a empresa anunciou a injeção de R$ 100 milhões no estado para desenvolver infraestrutura de embarque, financiar empresas parceiras regionais e implementar sistemas de segurança.
A trajetória que desafiou a legislação engessada do transporte interestadual brasileiro começou de uma constatação aritmética básica. Antes das cifras milionárias e da disputa jurídica com o oligopólio das viações, houve apenas um casamento, convidados saindo de Minas Gerais e uma conta que contrariava a lógica de mercado.


