Minas Gerais consolidou sua posição como principal polo de lítio do Brasil, com produção recorde, bilhões em investimentos e domínio absoluto das exportações nacionais do mineral. Os dados, reunidos pela Agência Nacional de Mineração (ANM), pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais e pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), mostram um avanço expressivo na cadeia — mas também revelam uma contradição que limita o alcance econômico dessa riqueza: a maior parte do valor ainda sai do estado como matéria-prima e termina agregada em outros países.
Por que o lítio é tão estratégico
A importância do mineral está diretamente ligada à transição energética global. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), os veículos elétricos responderam por mais de 70% da implantação global de baterias de íon-lítio em 2025, enquanto os sistemas de armazenamento de energia ficaram com mais de 15%.
O lítio é o componente central nessa química — e sua demanda abrange também eletrônicos portáteis, ferramentas elétricas, cerâmica e vidro, conforme aponta o USGS.
Há ainda uma aplicação médica relevante. O lítio também é utilizado como medicamento estabilizador de humor no tratamento de mania, transtorno bipolar e depressão recorrente. Em Minas, esse elo aparece de forma concreta: a ANM registra que a Companhia Brasileira de Lítio (CBL) produz no estado carbonato de lítio em grau técnico, grau bateria e grau farmacêutico, além de hidróxido de lítio — abastecendo tanto a cadeia industrial quanto aplicações farmacêuticas específicas.
O domínio mineiro dentro do Brasil
No cenário nacional, Minas ocupa posição dominante. As reservas brasileiras de lítio estão concentradas no Vale do Jequitinhonha e na região de São João del-Rei, ambas em território mineiro. Em 2024, a produção se concentrou nos municípios de Itinga, Araçuaí e Nazareno, e as três principais empresas do setor no país — Sigma Mineração, AMG Brasil e CBL — estão em Minas, segundo a ANM. O governo estadual afirma que o estado responde por mais de 90% das exportações brasileiras da cadeia do lítio.

O avanço recente foi expressivo. A Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Minas registrou produção recorde de mais de 944 mil toneladas de lítio em 2024 — quase quatro vezes o volume de 2023. O programa Vale do Lítio já atraiu R$ 6,3 bilhões em investimentos, com projeção de quase 5 mil empregos diretos.
O tamanho mineiro no cenário global
No contexto mundial, porém, é importante dimensionar o peso de Minas com precisão. O USGS estima a produção brasileira em 12 mil toneladas em 2025 — muito abaixo de Austrália (92 mil), China (62 mil) e Chile (56 mil). Em reservas, o Brasil soma 540 mil toneladas estimadas, também atrás dos grandes líderes globais.
O que torna Minas atraente para países como Estados Unidos e Japão, portanto, não é o volume atual, mas o potencial de expansão, a qualidade dos projetos e a necessidade geopolítica de diversificar fornecedores fora do eixo dominante do mercado.
A contradição que limita o salto econômico
Há, porém, uma fragilidade estrutural relevante no modelo exportador. Dados da ANM mostram que, em 2024, 97% do valor exportado de produtos de lítio pelo Brasil foi destinado à China. No mesmo período, o país importou US$ 623,6 milhões em acumuladores elétricos de íon-lítio — ou seja, baterias prontas, produto de muito maior valor agregado.
O diagnóstico é claro: Minas avançou na mineração e no beneficiamento inicial, mas o Brasil ainda depende fortemente de produtos industriais finais fabricados no exterior. O desafio econômico não é apenas extrair mais, mas capturar mais etapas da cadeia produtiva dentro do próprio território.
O próximo passo: industrialização ou apenas mais extração?
É justamente nessa fronteira que o interesse americano e japonês ganha relevância. Se Minas conseguir transformar reserva mineral em processamento químico, insumos industriais e atração de fabricantes de baterias, o estado pode deixar a condição de fornecedor de concentrado e assumir posição mais robusta na economia da transição energética.