Do outro lado do mundo a chamada “Nova Rota da Seda” vem movimentando investimentos bilionários para diminuir o custo logístico de bens de consumo e, em escala menor, Minas Gerais tem a oportunidade de trilhar um caminho parecido com o Rodoanel. A decisão está com o Tribunal Regional Federal da 6ª Região, nas mãos do Desembargador Vallisney Oliveira. Foi o que explicou o presidente do Fecomércio, Nadim Donato.
O paralelo da ‘Nova Rota da Seda’ com o Rodoanel não é perfeito, mas é mais preciso do que parece. Em escala muito menor, Minas Gerais enfrenta hoje uma versão contemporânea do mesmo problema: possui riqueza produtiva — mineração, agronegócio, indústria automotiva, saúde — mas parte do valor gerado se perde no caminho, literalmente, porque a rota de escoamento atravessa uma metrópole congestionada.
“Para nós é muito importante a realização e o começo urgente do Rodoanel. Ele representa não só um crescimento para Belo Horizonte, mas para todas as cidades do entorno. É uma valorização, primeiro, da vida, por que protege muitas pessoas que estão morrendo no entorno”, explicou Nadim ao Moon BH nesta terça-feira, 7.

Ele avalia que o impacto também é econômico: “Pra nós, que trabalhamos com o mercado mineiro – Fecomércio MG, Fiemg, Fetcemg e Faemg – entendemos que a logística melhora muito. Por isso pedimos uma celeridade da decisão, que está nas mãos do desembargador Vallisney Oliveira. Me falaram que depende somente de uma assinatura”.
Quando o caminho é o problema
A Rota da Seda funcionava porque desviava o comércio de pontos de atrito — desertos hostis, reinos fechados, travessias perigosas. O princípio era simples: o caminho mais eficiente não é necessariamente o mais curto no mapa, mas o que oferece menor resistência ao fluxo. Resistência, nesse caso, significa custo, tempo, risco e imprevisibilidade.
Em Minas, o ponto de atrito tem nome e endereço: o Anel Rodoviário de Belo Horizonte, corredor que acumula uma média de 52 mortes por ano em acidentes provocados quase exclusivamente por veículos de carga, segundo a Agência Minas. É por ali que passam caminhões que poderiam — e deveriam — contornar a capital. Em vez disso, atravessam áreas urbanas de BH, Contagem e Betim, enfrentando congestionamentos, semáforos, risco de colisão e imprevisibilidade de tempo.

Cada hora perdida nessa travessia tem custo mensurável: mais diesel, mais horas de motorista, menor produtividade do veículo, maior desgaste de frota.
A CNT informou que, em 2025, as condições precárias do pavimento brasileiro elevaram em média 31,2% os custos operacionais do setor de transporte.
A pequena Rota da Seda mineira
O Rodoanel propõe exatamente o que os mercadores da Antiguidade aprenderam na prática: criar um desvio que elimine o ponto de atrito. Com 100 quilômetros de malha rodoviária planejados, passando por 11 cidades da região metropolitana — e 70 quilômetros na primeira etapa —, o projeto permitiria que o transporte de carga contorne Belo Horizonte em vez de atravessá-la.
“Isso melhora a logística, que reflete no preço dos nossos produtos para o consumidor, vai diminuir o ‘Custo Brasil'”, concluiu o presidente do Fecomércio.
O custo invisível que o país paga
Há uma forma menos visível de encarar esse problema. O Custo Brasil raramente aparece como uma linha única na planilha de uma empresa. Ele se acumula em pequenas ineficiências: o caminhão que chega atrasado, o estoque que precisa ser maior para compensar a imprevisibilidade, a tarifa de frete embutida no preço do produto que o consumidor paga sem saber. É o custo do caminho ruim, distribuído por toda a economia.