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Guerra no Irã ameaça exportação de milho em Minas Gerais e adubo vira problema de todo o agro

Se o conflito no Oriente Médio se agravar, o impacto para o agro mineiro não deve aparecer primeiro na manchete geopolítica. Deve aparecer no caixa da fazenda. Em entrevista ao Moon BH, o gerente de Agronegócio do Sistema Faemg Senar, Rafael Rocha, chamou atenção para dois pontos que hoje concentram o risco: a exposição do milho brasileiro ao mercado iraniano e a forte dependência nacional de fertilizantes importados. É uma combinação que transforma uma guerra distante em variável concreta para o produtor mineiro.

O alerta faz sentido. Em 2025, o agronegócio brasileiro exportou US$ 169,2 bilhões, recorde histórico. Dentro desse fluxo, o Irã foi o principal destino do milho brasileiro no ano, com US$ 1,64 bilhão e 7,4 milhões de toneladas embarcadas, o que ajuda a explicar por que a tensão regional pesa mais sobre o cereal do que sobre a soja.

O problema não é só vender menos. É vender pior

Se o Irã reduzir compras, enfrentar dificuldades logísticas ou passar a operar com mais restrições financeiras e cambiais, o efeito pode bater na comercialização brasileira. Em Minas, isso importa porque parte da produção entra justamente nessa engrenagem exportadora, ainda que o estado não seja o maior player nacional.

“O Irã é um importante comprador de milho brasileiro. Diante disso, um eventual agravamento de conflitos no Oriente Médio gera preocupação principalmente para o mercado. Dependendo da dimensão e da duração do cenário, podem ocorrer impactos no fornecimento e na comercialização, com reflexos também para a produção mineira destinada a esse mercado”, explica Rafael.

O dano não precisa vir apenas na forma de cancelamento. Pode surgir como postergação de embarques, pressão sobre prêmio, aumento de custo logístico ou necessidade de redirecionar volume para outros destinos em condições piores. Em mercado agrícola, às vezes o prejuízo não está em “não vender”, mas em vender com menos margem.

O adubo é a segunda trincheira — e talvez a mais perigosa

A outra metade do problema está nos fertilizantes.

O Brasil convive há anos com dependência estrutural de insumos importados. O Plano Nacional de Fertilizantes mostra que o país importa maior parte dos fertilizantes, evidenciando a vulnerabilidade do agro nacional a choques externos.

Adubo minas gerais fertilizantes
Foto: kolesnikovsergii

Isso ganha peso extra porque o Oriente Médio não influencia apenas petróleo e frete. Segundo análise da FAO publicada em março de 2026, a região responde por algo entre 30% e 35% das exportações globais de ureia e 20% a 30% das exportações de amônia, dois produtos centrais para a adubação mundial.

Ou seja: quando a tensão sobe, não sobe apenas o barril. Sobe também o risco sobre a oferta e o preço de insumos que sustentam a produtividade da próxima safra.

A IEA estima que cerca de 25% do comércio marítimo mundial de petróleo e quase 20% do comércio global de LNG passaram pelo Estreito de Ormuz em 2025. Qualquer disrupção ali tem efeito quase imediato sobre combustível, frete, seguro marítimo e custo industrial.

Para o produtor rural, isso se traduz em cadeia. O diesel encarece o transporte. O gás pressiona a produção de nitrogenados. O frete sobe. O importador compra mais caro. E, quando o adubo chega ao Brasil, já chega contaminado por uma guerra de custos.

Minas entra no jogo num momento delicado

Rafael Rocha também toca num ponto importante: as colheitas em Minas estão atrasadas: “Até o momento, não há registro de uma corrida expressiva por fertilizantes. Produtores ainda adotam postura cautelosa, especialmente porque as colheitas, em Minas Gerais, estão atrasadas. No entanto, o setor acompanha com atenção o cenário internacional, diante do receio de elevação dos custos e da possibilidade de eventual escassez de insumos”.

Plantação de Milho
Foto: stevanovicigor – Envato

Segundo Rocha, um levantamento apresentado ao Sistema Faemg Senar pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) indicou que 25% dos adubos necessários para a próxima safra já foram contratados. “O número demonstra que ainda há uma demanda significativa e uma necessidade importante de aquisição desses insumos nos próximos meses”, ponderou.

Pó de Rocha não é solução imediata

Protagonista na mineração, Minas poderia se tornar protagonista com o pó de rocha? Para Rafael, trata-se de uma solução que não resolve o problema: “O pó de rocha é apontado como uma alternativa, mas não viável no curto prazo para substituição dos adubos convencionais. Embora contribua para a melhoria gradual da fertilidade do solo, seus efeitos são de longo prazo e não atendem à demanda imediata das lavouras”.

Ou seja, é uma alternativa complementar, não substitutiva.

No curto prazo, Minas continua dependente do adubo convencional importado. E essa dependência significa que o produtor mineiro não está apenas olhando para clima, câmbio e preço de Chicago. Está olhando também para Teerã, para o Golfo e para a rota dos navios.

Para Minas, isso significa uma mudança de chave. O debate já não é apenas sobre produzir mais. É sobre proteger margem, antecipar compra quando fizer sentido e entender que, na agricultura moderna, geopolítica também virou custo de produção. É o conflito no Oriente Médio começando a entrar na planilha do produtor.

Fhilipe Pelájjio
Fhilipe Pelájjiohttps://moonbh.com.br/fhilipe-pelajjio/
Publicitário, jornalista e pós-graduado em marketing, é editor do Moon BH e do Jornal Aqui de BH e Brasília. Já foi editor do Bhaz, tem passagem pela Itatiaia e parcerias com R7, Correio Braziliense e Estado de Minas. Especialista na cobertura de política, economia de Minas Gerais e de futebol e sua influência econômica e política.