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Como a mineira Bem Brasil desbancou multinacionais e virou a ‘rainha das batatas congeladas’

Se existe um produto que traduz o poder silencioso e trilionário do agronegócio mineiro, ele não vem das fazendas de café nem das queijarias artesanais: ele vem do freezer do supermercado. E a Bem Brasil, indústria nascida em Araxá, transformou um estado historicamente associado à mineração no grande hub nacional da batata pré-frita congelada.

Hoje, a empresa ostenta cerca de 50% de participação de mercado no Brasil. O domínio absoluto das prateleiras, no entanto, não é um milagre do marketing. Ele é o resultado direto de um fato geográfico e econômico inegável: Minas Gerais é o maior produtor de batatas do país.

De acordo com o IBGE, o estado responde por 30,5% da produção nacional, embora estimativas do setor cravem até 35%, com uma estimativa de 1,4 milhão de toneladas colhidas em 2025. A liderança da Bem Brasil, portanto, não aconteceu “apesar” de Minas; ela nasceu exatamente por causa de Minas.

A Estratégia do ‘Quintal de Casa’ (2006)

A fundação da marca, em 2006, partiu de uma leitura precisa do mercado. O Brasil assistia a um salto no consumo de fast-food, mas o setor de batatas congeladas era dominado por produtos importados e multinacionais. A Bem Brasil se posicionou como a primeira indústria genuinamente nacional do segmento, operando com uma vantagem insuperável: o custo logístico.

Ao instalar suas fábricas em Araxá e Perdizes, no coração do Alto Paranaíba e Triângulo Mineiro, a empresa eliminou a distância entre a lavoura e a esteira de produção.

O Efeito Minas: Por que a origem define o lucro

Na indústria de alimentos, ter a fábrica ao lado da plantação não é apenas uma questão de baratear o frete. É uma garantia de previsibilidade técnica.

Plantação de batata inglesa em Minas Gerais
Foto: banco de imagem

Para ser processada industrialmente, a batata exige um padrão rigoroso de matéria seca, tamanho e sanidade. O cinturão agrícola min eiro entrega exatamente isso: alta produtividade, tecnologia de ponta e sistemas de irrigação calibrados. O campo fornece a regularidade que a indústria precisa para não parar.

A estrutura atual da companhia impressiona o mercado corporativo:

  • Capacidade Instalada: 500 mil toneladas por ano.
  • Potencial de Atendimento: Capacidade para suprir até 55% de toda a demanda nacional.
  • Portfólio: Quatro linhas de produção e um mix com mais de 20 produtos.

A Conquista da ‘Air Fryer’ e a Barreira de Entrada

A virada de chave definitiva da Bem Brasil, atestada por dados da consultoria Kantar, foi a popularização das fritadeiras elétricas (air fryers) nos lares brasileiros. A empresa não ficou restrita ao food service (restaurantes e lanchonetes); ela invadiu a casa do consumidor, entregando a conveniência de um produto de restaurante com preparo doméstico.

Fábrica da Bem Brasil
Foto: Divulgação

Quando uma marca atinge 50% de market share em um item de consumo recorrente, ela cria uma barreira de entrada intransponível para novos concorrentes. O brasileiro não compra apenas uma batata; ele compra um hábito que já deu certo no seu almoço de domingo.

O Novo Mapa: Riscos e a Fronteira Baiana

Nenhuma liderança de mercado é isenta de riscos. O calcanhar de aquiles da agroindústria continua sendo a dependência climática e hídrica, além da flutuação dos custos com energia e óleo, essenciais para a cadeia do frio.

Para mitigar esses riscos e manter a hegemonia, a Bem Brasil já sinalizou seu próximo grande salto: a expansão geográfica. Com um investimento bilionário direcionado a uma nova unidade na Bahia, a companhia mira agora a exportação e o aumento exponencial de sua capacidade produtiva, descentralizando sua dependência hídrica e logística do Sudeste.

A eficiência do agro mineiro

Minas Gerais exporta muito mais do que minério; exporta eficiência logística e industrial. O dado do IBGE sela a narrativa: somos os donos da batata no Brasil.

A trajetória da Bem Brasil prova que o agronegócio mineiro, quando estruturado com inteligência de ponta a ponta, não precisa ser coadjuvante de nenhuma marca gringa. A ironia corporativa é fascinante: o estado que fez fama perfurando o subsolo encontrou em um tubérculo a receita perfeita para faturar bilhões e dominar os freezers de todo o país.

Fhilipe Pelájjio
Fhilipe Pelájjiohttps://moonbh.com.br/fhilipe-pelajjio/
Publicitário, jornalista e pós-graduado em marketing, é editor do Moon BH e do Jornal Aqui de BH e Brasília. Já foi editor do Bhaz, tem passagem pela Itatiaia e parcerias com R7, Correio Braziliense e Estado de Minas. Especialista na cobertura de política, economia de Minas Gerais e de futebol e sua influência econômica e política.