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Como a energia solar “sem limites” travou as hidrelétricas, e Minas paga a conta

O sistema elétrico de Minas Gerais chegou a um paradoxo que nenhum comunicado oficial resume com clareza: o estado tem energia renovável sobrando no papel e falta capacidade de escoar na prática. Um documento usado como base para leilões de pequenas hidrelétricas expõe o problema em números — 55% dos pontos de transmissão e conexão do sistema já estão esgotados.

Em Minas, o quadro é ainda mais crítico: dos 13 barramentos listados, 9 aparecem como inviáveis para novos projetos. E parte relevante dessa capacidade foi ocupada pela expansão acelerada da geração fotovoltaica.

O que significa “ponto esgotado” — sem jargão

Quando o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) classifica um barramento como esgotado, a tradução prática é uma só: a rede ali não tem margem para receber mais geração sem violar limites de segurança operacional.

Tensão, estabilidade, carregamento — tudo já no limite. Novos projetos podem ter licença, outorga e capital disponível, mas ficam parados porque não conseguem conexão ou são submetidos a restrições severas de despacho.

O gargalo não é falta de energia. É falta de “fio” — e de direito de escoar o que já existe.

Como a solar ocupou as melhores tomadas

A expansão fotovoltaica no Brasil foi veloz demais para a infraestrutura de transmissão acompanhar. O ciclo de uma nova linha ou subestação leva anos — licenciamento, leilão, obra, energização. A solar não esperou.

O resultado foi uma fila de acesso crescente e o esgotamento progressivo de pontos em regiões que viraram ímãs de projetos pela combinação de irradiação alta, terreno disponível e logística razoável — exatamente o perfil de boa parte do interior mineiro.

Hidrelétricas e energia solar em minas gerais
Fotos: edição Moon BH

O efeito mais visível dessa pressão é o curtailment: quando o sistema congestiona, o ONS corta geração para manter segurança elétrica. Energia que existe, mas é interrompida por decisão do operador — não do clima. Esse corte de solar e eólica cresceu sistematicamente e já é tema central do setor em 2025 e 2026.

Por que hidrelétricas — e não só elas — estão travadas

Pequenas centrais hidrelétricas dependem de pontos de conexão próximos e, frequentemente, de obras menores de rede. Com os barramentos esgotados, os projetos perdem previsibilidade de cronograma, ficam mais caros — porque precisam bancar reforços de rede por conta própria — e se tornam inviáveis nos leilões, onde o risco de conexão entra diretamente no preço da energia ofertada.

A pressão não para nas PCHs. Mineração, indústrias e data centers disputam as mesmas margens de rede, num movimento que o ONS vem tratando nos processos de acesso mais recentes e que transforma infraestrutura elétrica em ativo estratégico tão escasso quanto o próprio kilowatt-hora.

A inversão que define o próximo ciclo em MG

O mercado já percebeu a mudança de lógica. Como os barramentos esgotam, passa a fazer mais sentido comprar projetos já conectados, adquirir participação em ativos operacionais ou negociar “janelas” em subestações do que construir uma usina nova do zero.

A corrida deixou de ser por geração e virou corrida por acesso — o que eleva o valor de projetos conectados e muda toda a dinâmica de fusões e aquisições no setor.

O que pode destravar o nó é conhecido: novas linhas e subestações, gestão mais rígida da fila de acesso pelo ONS e projetos híbridos com armazenamento, que reduzem picos e melhoram o aproveitamento da rede existente. Todos esses caminhos, porém, têm um denominador comum — são lentos.

Quem entender primeiro que a transição energética mineira entrou numa segunda fase — não mais corrida por usina, mas corrida por infraestrutura — vai dominar o próximo ciclo. O sol não falta em Minas. O problema é que a tomada está ocupada.

Fhilipe Pelájjio
Fhilipe Pelájjiohttps://moonbh.com.br/fhilipe-pelajjio/
Publicitário, jornalista e pós-graduado em marketing, é editor do Moon BH e do Jornal Aqui de BH e Brasília. Já foi editor do Bhaz, tem passagem pela Itatiaia e parcerias com R7, Correio Braziliense e Estado de Minas. Especialista na cobertura de política, economia de Minas Gerais e de futebol e sua influência econômica e política.