O debate sobre o fim da exaustiva escala 6×1 (seis dias de trabalho para um de descanso) saiu de Brasília e aterrissou direto nos corredores dos supermercados de Belo Horizonte. A partir de março de 2026, o Grupo Supernosso dará um passo ousado: iniciará um projeto-piloto para adotar a jornada 5×2 em suas áreas operacionais.
A promessa da rede varejista é atacar de frente um dos maiores vilões da qualidade de vida nos grandes centros: o desgaste físico e mental de quem perde horas no trânsito quase todos os dias da semana. Mas como essa matemática funciona na prática para a empresa e para o funcionário?
A Matemática do 5×2 no Supernosso
É importante esclarecer: não há redução da carga horária semanal nem do salário. O modelo preserva as 44 horas previstas na CLT, mas faz uma redistribuição do esforço. O desenho divulgado pelo Supernosso funciona assim:
- Jornada Diária: Sobe de 7h20 (no modelo 6×1) para 8h48 por dia.
- Folgas: O funcionário ganha dois dias de descanso na semana (que podem ser consecutivos ou não, dependendo da escala da loja).
- O Piloto: O teste começa em três unidades específicas, com perspectiva de ampliação para o resto da rede ainda em 2026, caso a engenharia operacional dê certo.
O Ganho Real: O benefício não é trabalhar menos horas no total, mas sim eliminar um dia inteiro de deslocamento (ônibus, trânsito, preparação) e garantir 48 horas para resolver a vida pessoal (médico, banco, filhos) e, de fato, descansar.
O Pano de Fundo: A Pressão de Brasília
O movimento do Supernosso não acontece num vácuo. Em dezembro de 2025, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou a proposta que reduz gradualmente a jornada e prevê o fim do 6×1 no Brasil. Ao não esperar a lei “cair de paraquedas”, a rede mineira tenta sair na frente para capturar uma vantagem rara no varejo: retenção de talentos e fortalecimento da marca empregadora.
“Mas a conta fecha?” O Dilema do Varejo
Historicamente, o setor de comércio e serviços resiste à mudança alegando explosão de custos. Uma nota técnica do Centro de Liderança Pública (CLP) chegou a projetar riscos de eliminação de até 600 mil empregos formais no país caso a transição para o 5×2 fosse imposta sem planejamento.
A leitura do Supernosso é pragmática. Se a escala for mal feita, o supermercado fica com a “operação capenga” nos horários de pico. O piloto em três lojas servirá exatamente para testar os gargalos: como fica a fila do caixa no sábado? E a reposição do hortifrúti de manhã?
A aposta do Supernosso é inteligente. Se o 5×2 reduzir a altíssima rotatividade (turnover) do setor e diminuir os atestados médicos por exaustão, a empresa ganha produtividade. Gente descansada atende melhor, erra menos e não falta. Se a rede conseguir transformar o descanso em vantagem competitiva, provará para o resto do mercado que o que parecia impossível é, na verdade, o futuro do varejo.