Belo Horizonte ganhou, nos últimos dias, um plano de marketing turístico pronto. O chef Érick Jacquin, jurado do MasterChef Brasil, passou pelo Mercado Central e lançou o desafio em vídeo: ele quer gravar um episódio do reality show ali. A proposta não é apenas usar o local como cenário, mas como protagonista — com competidores correndo pelos corredores para “caçar” queijo, cachaça e temperos em 30 minutos.
A internet vibrou com a ideia, mas a pergunta que interessa aos gestores da cidade é pragmática: vale a pena a Prefeitura investir dinheiro público para viabilizar isso? A resposta, baseada em dados de turismo global e na economia de BH, é um sonoro “sim”. E a conta pode chegar a R$ 36 milhões.
O Fenômeno “Set-jetting”: A TV vira Passagem Aérea
Cidades inteligentes não patrocinam programas de TV por vaidade; elas fazem isso porque funciona. O fenômeno tem nome: Set-jetting (turismo de set de filmagem). O audiovisual reduz o “custo mental” de decisão de viagem. O turista sente que “já conhece” o lugar.
Os dados globais provam que a tela converte em visita:
- 🇬🇧 Reino Unido: Pesquisa da VisitBritain mostra que 9 em cada 10 potenciais visitantes têm interesse em conhecer locais vistos em filmes ou TV.
- 🏴 Escócia: Em 2023, o país recebeu 1,14 milhão de “turistas de tela”, gerando £161,4 milhões para a economia local.
- 🇳🇿 Nova Zelândia: O governo atrelou sua marca turística à franquia O Hobbit, influenciando diretamente 14% das decisões de férias no país.
- 🇦🇺 Austrália: O governo (Tourism Australia) fechou parcerias oficiais com o MasterChef Australia para promover regiões específicas, tratando o programa como vitrine de exportação.
A Matemática de BH: De R$ 18 a R$ 36 Milhões
Não é “chute”. É possível simular o impacto com base nos números que a própria Belotur divulga. Em julho, BH recebeu 120 mil turistas, movimentando R$ 216 milhões. O ticket médio (gasto por turista) gira em torno de R$ 1.800.

Se um episódio de alcance nacional na Band + repercussão digital massiva (YouTube/TikTok) atrair um fluxo extra conservador, a conta é esta:
- Cenário 1 (+10 mil turistas ao longo do ano): Injeção de R$ 18 milhões na economia.
- Cenário 2 (+20 mil turistas ao longo do ano): Injeção de R$ 36 milhões na economia.
O Mercado Central já recebe 15 milhões de pessoas por ano (32 mil/dia), mas o MasterChef tem o poder de atrair o turista de fora — aquele que paga hotel, usa Uber e come em restaurante, injetando “dinheiro novo” na cidade.
O Jeito Certo de Fazer (Sem “Cheque em Branco”)
Para que o investimento se justifique, a Prefeitura não pode apenas “dar o dinheiro”. A negociação deve ser tratada como compra de mídia e estratégia territorial. O contrato ideal deve incluir:
- Direitos de Imagem: A Belotur precisa poder usar trechos do programa em suas campanhas oficiais.
- Cota de Merchandising Territorial: BH e o Mercado Central devem ser citados nominalmente na narrativa, não apenas aparecer ao fundo.
- A “Rota MasterChef”: Criar um roteiro físico e digital (QR Codes no Mercado) mostrando “onde o vencedor comprou o queijo” ou “a banca que apareceu na prova”.
- KPIs (Metas): Medir o aumento de buscas por “Turismo BH” no Google e o fluxo de visitantes no Mercado pós-exibição.
Conclusão: A Oportunidade bate à Porta
Jacquin não está inventando a roda; ele está oferecendo a BH a chance de usar um megafone nacional para gritar o que a gente já sabe: que temos a melhor comida do Brasil. Se o mundo inteiro usa o audiovisual como atalho para atrair dólares e euros, BH ficar assistindo de fora pode ser o erro mais caro da temporada. O produto está pronto. Só falta assinar o contrato.