Minas Gerais vai ganhar uma carta rara para transformar tradição em preço, proteção e mercado global. Com o avanço do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia — cuja assinatura está prevista para 17 de janeiro de 2026, no Paraguai —, três ícones do estado entraram na lista de proteção internacional: o Queijo Canastra, o Queijo do Serro e a Cachaça de Salinas.
Isso significa que esses produtos passam a ser reconhecidos na Europa como Indicações Geográficas (IGs). Na prática, eles entram para o mesmo clube exclusivo de gigantes como o queijo Roquefort (França) e o Gorgonzola (Itália).
O Que Significa “Efeito Roquefort”?
Na Europa, a origem do produto é sagrada. Um queijo só pode ser chamado de “Roquefort” se for feito naquela região específica da França, seguindo regras rígidas. Qualquer outro é apenas “queijo azul”. Essa proteção jurídica é o que garante o preço elevado e a fama mundial.
Com o acordo, os produtos mineiros ganham essa blindagem. Na Europa, ninguém poderá vender um queijo genérico chamando-o de “Tipo Canastra” ou uma aguardente qualquer rotulada como “Salinas”.
- Canastra e Serro: Reconhecidos como Queijos com Indicação de Procedência.
- Região de Salinas: Reconhecida como “Bebida Espirituosa” (Spirits) de origem protegida.
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Valorizar é Preciso: A Estratégia de Ouro
A oportunidade, porém, não é automática. Para lucrar com o acordo, Minas precisa tratar a IG como estratégia de mercado, não apenas como um diploma na parede.
1. A Disciplina do Luxo O consumidor europeu paga caro, mas exige consistência. Para virar item de exportação, o Canastra e a Cachaça de Salinas precisam de padronização, rastreabilidade e cumprimento rigoroso das regras da IG.
2. O Fim do “Genérico” O acordo ajuda a limpar o mercado. Assim como o tratado protege o Gorgonzola (com regras de transição para produtores brasileiros que já usavam o nome), ele protege o nome mineiro na Europa. Isso força o mercado a diferenciar o “legítimo” da “cópia”.
3. O Alerta Sanitário É importante ser realista: ter o nome protegido (IG) é um avanço comercial e de propriedade intelectual, mas não isenta o produtor das barreiras sanitárias. Para entrar na Europa, o queijo mineiro ainda precisa superar as exigências de segurança alimentar da UE, que são as mais rigorosas do mundo. O nome abre a porta do marketing; a sanidade abre a fronteira física.
Conclusão: De “Produto Regional” a “Ativo Global”
Minas Gerais tem agora a ferramenta que a França e a Itália usam há décadas para vender comida a preço de ouro. Se soubermos organizar a cadeia, fiscalizar a qualidade e contar nossa história, Canastra, Serro e Salinas deixarão de ser apenas “coisas gostosas de Minas” para se tornarem, oficialmente, patrimônios da alta gastronomia mundial.