Doze metros de altura, plantados bem na margem da estrada. Não é um museu escondido, nem uma praça secundária. É um cartão de visitas impossível de ignorar. A cidade em que Pelé nasceu, Três Corações, no Sul de Minas, ergueu uma estátua gigante do Rei do Futebol visível para quem passa pela rodovia, numa tentativa clara de fazer o motorista associar imediatamente a cidade ao seu filho mais ilustre.
O gesto tem valor simbólico, mas também carrega uma estratégia comercial por trás: transformar a memória de Pelé em movimento real de turismo para o município.
Por que Três Corações aposta tanto nessa ligação com Pelé?
Porque o vínculo é histórico e praticamente exclusivo. Foi ali que Edson Arantes do Nascimento nasceu, em 23 de outubro de 1940, antes de construir a carreira que o transformaria em um dos brasileiros mais famosos de todos os tempos.
Ao longo das décadas, a cidade já incorporava essa identidade de formas menores: referências turísticas, memória afetiva dos moradores e espaços dedicados a contar parte dessa história, como a Casa Pelé, ligada aos primeiros anos de vida do atleta. A estátua gigante, porém, leva esse vínculo a outro patamar, saindo do circuito interno da cidade para a vitrine da estrada.
Cidades médias do interior costumam disputar atenção turística com poucos instrumentos: eventos, gastronomia, patrimônio histórico ou religiosidade. Três Corações tem algo que praticamente nenhum outro município do planeta pode reivindicar, o berço do maior nome da história do futebol para muitas gerações, e decidiu explorar exatamente isso.
Como a localização do monumento amplia seu efeito?
A escolha de erguer a estátua à margem da rodovia não é acidental. Em vez de esperar que o turista descubra a história dentro da cidade, o município tenta capturar a atenção de quem está de passagem, antes mesmo da chegada.
O monumento funciona como marco de entrada, uma peça de reconhecimento instantâneo para quem nunca imaginou parar em Três Corações. O viajante que reduz a velocidade para observar a escultura é o mesmo que pode decidir entrar na cidade, visitar outros pontos ligados ao ex-jogador, almoçar, abastecer o carro ou até pernoitar.
Esse tipo de equipamento urbano também atende a uma lógica mais recente do turismo: monumentos de grande porte costumam circular rápido em vídeos curtos e redes sociais, ampliando o alcance da cidade para muito além de quem passa fisicamente pela estrada.
A coincidência sobre a cidade e Pelé
Um reposicionamento dentro de uma narrativa maior. O estado costuma ser lembrado nacionalmente por cidades coloniais, montanhas, culinária e religiosidade, mas também produziu personagens centrais da cultura, da política, da música e do esporte brasileiro.
Há ainda uma coincidência que os moradores gostam de repetir. O nome da cidade remete a três corações, e Pelé é justamente o único jogador da história a erguer três taças de Copa do Mundo, em 1958, 1962 e 1970.
A monumentalização de Pelé recoloca Minas dentro dessa biografia esportiva. Em vez de aparecer apenas como craque do Santos ou da seleção brasileira, ele volta a ser apresentado, em escala monumental, como alguém que nasceu no interior mineiro. Esse movimento ganha força particular depois da morte do Rei, em dezembro de 2022, quando cresceu no Brasil a tendência de transformar sua trajetória em legado físico, com museus, memoriais, nomeações e espaços públicos dedicados à sua memória.
O que mais existe em Três Corações ligado a Pelé

A estátua gigante não surge isolada. Três Corações já possui outros elementos associados à memória do ex-jogador, como a Casa Pelé, ligada aos primeiros anos de vida do atleta e à tentativa de preservar sua relação com a cidade natal.
Esse conjunto ajuda a montar um circuito de memória que pode interessar tanto a turistas ocasionais quanto a fãs de futebol. Para quem passa pela rodovia, a escultura pode ser o primeiro contato. Para quem entra na cidade, ela vira a porta de entrada de uma narrativa mais ampla.
Esse é, provavelmente, o maior acerto do monumento. Em vez de funcionar apenas como peça decorativa, ele pode atuar como gatilho para um roteiro turístico e afetivo.
Também há um componente emocional importante. Pelé é uma das raras figuras do esporte brasileiro capazes de unir admiração entre torcedores de clubes rivais, gerações diferentes e até públicos que nem acompanham futebol de perto. Uma escultura desse porte tende a atrair não só curiosidade, mas também reverência.


