As montanhas do Sul de Minas guardam mais do que águas termais e cafezais. Durante os anos de chumbo da Ditadura Militar (1964-1985), a região de Poços de Caldas foi o coração pulsante de um dos projetos mais ambiciosos — e perigosos — da história nacional: o Programa Nuclear Paralelo.
O objetivo não declarado nos documentos oficiais da época era claro para a cúpula militar: o Brasil queria dominar o ciclo do átomo não apenas para gerar energia, mas para desenvolver sua própria bomba atômica. E o combustível para esse sonho de potência militar saiu do solo mineiro.
O “Yellowcake” de Caldas
Enquanto o Brasil vendia a imagem das usinas de Angra (construídas com tecnologia americana e alemã para fins pacíficos), os militares operavam um projeto secreto, sem supervisão internacional. Para fazer uma bomba, o ingrediente vital é o Urânio enriquecido.
Foi aí que Minas Gerais entrou no mapa. A Mina Osamu Utsumi, em Caldas (vizinha a Poços), foi a primeira mina de urânio do Brasil.
- A Missão: Extrair o minério e transformá-lo no chamado “yellowcake” (o concentrado de urânio, que parece um pó amarelo).
- O Destino: Esse material era enviado para centros de pesquisa (como os da Marinha, em Iperó-SP) para ser enriquecido em centrifugadoras desenvolvidas nacionalmente, longe dos olhos dos EUA.
O Buraco no Pará, o Minério de Minas
A engrenagem do “Programa Paralelo” funcionava assim: Minas fornecia a matéria-prima, São Paulo desenvolvia a tecnologia de enriquecimento e o Pará (na Serra do Cachimbo) preparava o local do teste.
Documentos revelados anos depois mostraram que os militares chegaram a cavar um buraco de 320 metros de profundidade na Serra do Cachimbo, projetado para detonar um artefato nuclear experimental. Se aquela bomba tivesse explodido, as partículas radioativas teriam o DNA geológico de Minas Gerais.
O Fim do Sonho (e a Herança Maldita)
O projeto foi oficialmente encerrado em 1990, num ato simbólico onde o presidente Fernando Collor jogou uma pá de cal no buraco da Serra do Cachimbo, assinando acordos de não-proliferação nuclear.
Mas se o projeto da bomba acabou, o problema de Caldas apenas começou. Hoje, a antiga mina é um passivo ambiental gigantesco. A Unidade de Tratamento de Minérios (UTM) em Caldas guarda toneladas de rejeitos radioativos (a famosa “Torta II”).
- O Legado: Em vez de uma bomba, Minas ficou com a conta ambiental. A Indústrias Nucleares do Brasil (INB) ainda hoje monitora a área, que exige manutenção perpétua para evitar contaminação das águas da região.
No fim, Minas Gerais não virou uma potência nuclear, mas a cicatriz aberta na terra em Caldas serve como lembrete da época em que o “Grande Brasil” tentou brincar de Guerra Fria usando sotaque mineiro.