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Ouro de Minas Gerais reconstruiu Lisboa — e também “dourou” uma das igrejas mais exuberantes da Europa

Quando a terra tremeu em 1º de novembro de 1755, Lisboa não perdeu apenas prédios: perdeu o centro econômico, político e simbólico do império português. O sismo — seguido por incêndios e um tsunami — devastou a cidade e deixou um saldo humano gigantesco. A Encyclopaedia Britannica estima cerca de 60 mil mortes só em Lisboa, um número que dá a dimensão do colapso urbano e social.

O que nem sempre se conta com clareza, porém, é como a reconstrução da capital portuguesa se conectou diretamente a um “motor” do outro lado do Atlântico: o ouro das Minas Gerais. E como essa mesma riqueza, além de sustentar Estado e obras públicas, alimentou um ciclo artístico que transformou igrejas portuguesas em verdadeiros “cofres a céu aberto” — com destaque para a Igreja do Convento de São Francisco, no Porto, celebrada pela própria instituição como um dos mais ricos repositórios de talha dourada do país.

O terremoto que obrigou Portugal a reinventar Lisboa

A resposta do governo português ao desastre foi, para a época, quase “moderna”. O Marquês de Pombal coordenou um plano urbano racional, com quadras regulares, ruas mais largas e técnicas construtivas que buscavam reduzir riscos em novos abalos — o embrião do que ficou conhecido como Baixa Pombalina. Um estudo do Instituto Superior Técnico descreve como o traçado atual rompeu com o emaranhado medieval anterior e como a reconstrução se tornou referência de planejamento e engenharia anti-sísmica.

A UNESCO, ao tratar da candidatura do conjunto pombalino, aponta um dado que ajuda a medir o tamanho do esforço: a reconstrução exigiu centenas de decretos e instrumentos legislativos ao longo de décadas.

Por que Minas Gerais entra nessa história

No século XVIII, Portugal viveu um paradoxo: era a “cabeça” do império, mas dependia do que vinha das colônias para financiar suas ambições, cobrir déficits e se manter relevante na Europa.

Um estudo acadêmico sobre o ouro brasileiro estima que, entre 1720 e 1785, circularam na economia portuguesa cerca de 650 toneladas de ouro oriundas do Brasil; e calcula 557 toneladas chegando a Lisboa no período analisado, com grande parte desse metal sendo reexportada para outras praças europeias — um indício de que o ouro era, ao mesmo tempo, fonte de riqueza e engrenagem financeira internacional.

A origem principal dessa avalanche foi a região mineradora que hoje associamos a Ouro Preto, Mariana, Sabará, São João del-Rei e arredores. E, junto com o ouro, veio o sistema fiscal: o “quinto”, tributo que equivalia a 20% do metal extraído.

Do ouro das Minas ao “caixa” da reconstrução: o subsídio criado para Lisboa

Além dos impostos estruturais, houve um mecanismo diretamente ligado ao terremoto: o subsídio voluntário.

Um artigo acadêmico baseado em documentação setecentista registra de forma explícita que esse tributo foi instituído para ajudar na reconstrução de Lisboa após 1755 e que câmaras de vilas mineiras (como Vila Real de Sabará) reclamavam do peso da cobrança, alegando decadência local e sucessivas prorrogações.

O ponto central, para uma boa matéria: Lisboa não foi reconstruída apenas “com dinheiro do reino”. Houve um arranjo imperial em que as capitanias — inclusive Minas — financiaram o esforço, seja por impostos regulares sobre a mineração, seja por contribuições extraordinárias motivadas pelo desastre.

E a igreja “cheia de ouro”: por que São Francisco do Porto virou símbolo desse ciclo

Foto: Canva

A Igreja do Convento de São Francisco, no Porto, está no coração da zona histórica reconhecida como Patrimônio Mundial pela UNESCO desde 1996 e é Monumento Nacional desde 1910, segundo a própria instituição responsável pelo complexo.
No mesmo texto, a Ordem afirma que o templo foi “sucessivamente enriquecido” até ser considerado “um dos mais ricos e belos repositórios de talha dourada de Portugal”, com revestimentos barrocos trabalhados do século XVII a meados do XVIII.

Mas de onde vem a conexão direta com Minas?

Um artigo da UFMG sobre o setecentos mineiro sintetiza o elo: Portugal despontou no século XVIII “sob o patrocínio do ouro do Brasil, particularmente da capitania das Minas Gerais” — e esse impulso alimentou o ciclo barroco, com talha dourada e a ideia das “igrejas revestidas de ouro”, destacando que a cidade do Porto também foi atravessada por esse entusiasmo econômico vindo da América portuguesa.

Em outras palavras: o ouro extraído em Minas não ficou “parado” em cofres. Ele virou cidade reconstruída (Lisboa), virou fluxo financeiro europeu, e também virou ornamento e poder simbólico — a estética barroca como demonstração material de fé, status e influência.

O que essa história revela sobre Minas

Minas Gerais costuma ser lembrada pelo barroco “de cá” — Ouro Preto, Congonhas, Sabará, Mariana. Mas há um ângulo pouco explorado no noticiário: o barroco “de lá” também carrega a assinatura econômica de Minas.

A rota do ouro mineiro até Lisboa (e até as talhas douradas do Porto) mostra como impérios funcionam na prática: riqueza não é apenas produção — é direcionamento. A Minas do século XVIII ajudou a financiar a reconstrução de uma capital europeia e a estética religiosa mais exuberante de Portugal; em troca, ficou com os custos sociais e fiscais de sustentar essa engrenagem.

Tati Oliveira
Tati Oliveira
Há quase 15 anos no mercado de comunicação, é apaixonada pela notícias e trabalha no jornalismo cobrindo entretenimento, grandes eventos e futebol.