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Por que BH foi escolhida para testar um censo que o Brasil nunca conseguiu fazer

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O Censo tradicional começa por uma pergunta aparentemente simples: onde está o domicílio que precisa ser visitado? Para contar a população em situação de rua, justamente essa referência deixa de existir. É esse problema que levou Belo Horizonte a se transformar em um dos cinco laboratórios brasileiros de uma operação inédita.

Entre 31 de agosto e 4 de setembro, equipes do IBGE percorreram a capital mineira para testar métodos que servirão de base para o primeiro Censo Nacional da População em Situação de Rua, previsto para 2028.

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BH não foi escolhida aleatoriamente. A cidade possui experiência anterior com levantamentos municipais, rede de atendimento estruturada e realidades diferentes entre áreas centrais e periféricas, características que permitem testar algumas das maiores dificuldades de um censo sem endereço fixo.

Como contar quem não tem domicílio?

O desafio começa na própria unidade utilizada pelo levantamento.

No Censo Demográfico convencional, o IBGE organiza grande parte da operação a partir dos domicílios. No novo levantamento, o instituto terá de encontrar pessoas em ruas, instituições de acolhimento e até ocupações não residenciais.

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A mobilidade cria outro problema: uma mesma pessoa pode estar em pontos diferentes da cidade ao longo de poucos dias. Se a coleta for longa demais ou não houver controle de abordagem, existe risco de duplicação.

Por isso, o IBGE explica na metodologia do novo Censo que a operação nacional deverá ocorrer em apenas quatro dias de coleta, divididos em turnos de manhã e tarde/noite. Todo o país utilizará a mesma data de referência para tentar garantir comparabilidade e reduzir duplicidades.

A estratégia é radicalmente diferente de simplesmente enviar recenseadores às casas.

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Por que Belo Horizonte foi escolhida?

Karoline Barreto – CMBH

A prova-piloto foi realizada em apenas cinco cidades: Belo Horizonte, Florianópolis, Goiânia, Salvador e Manaus. Mais de 400 pessoas participam das operações nas cinco capitais.

Segundo a Prefeitura de Belo Horizonte, o IBGE escolheu BH por causa da rede institucional já existente e da experiência municipal em contagens anteriores dessa população. A capital também oferece condições para testar abordagens em regiões centrais e periféricas e cruzar roteiros de campo com registros administrativos.

Durante os cinco dias de teste, recenseadores passaram por locais com maior presença de pessoas em situação de rua e por equipamentos públicos como Centros Pop e unidades de acolhimento.

A existência dessa rede é importante porque o levantamento depende de algo que um Censo residencial utiliza em proporção muito menor: conhecimento prévio dos territórios.

O Moon BH já mostrou uma parte dessa estrutura ao explicar como pessoas em situação de rua recebem atendimento oftalmológico nos Centros Pop de Belo Horizonte. Esses equipamentos também aparecem entre os locais usados para ajudar o IBGE a testar a nova metodologia.

Brasil ainda não tem um número nacional padronizado

A realização do primeiro Censo tenta resolver uma lacuna histórica.

Hoje, estimativas sobre a população em situação de rua podem vir de CadÚnico, registros administrativos e levantamentos municipais, mas as metodologias não necessariamente são iguais. Isso dificulta comparar diretamente uma cidade com outra ou acompanhar o fenômeno nacional usando uma única base.

O próprio IBGE alertou em maio que não produz atualmente rankings oficiais de municípios com maior população em situação de rua. O primeiro levantamento nacional padronizado só será realizado em 2028.

Essa diferença ajuda a explicar por que o teste é tão complexo. Antes de perguntar quantas pessoas vivem nessa situação, é necessário definir exatamente quem será contado, em que período e sob quais condições.

Na metodologia inicial, o Instituto considera pessoas que dormiram em ruas, instituições ou ocupações não residenciais por pelo menos uma noite nos sete dias anteriores à data de referência. O critério ainda passa pelas etapas de teste e validação antes da operação definitiva.

O teste de BH não é o Censo definitivo

Existe uma distinção importante: as equipes que passaram pela capital agora não estavam realizando a contagem nacional de 2028.

BH serviu como ambiente para descobrir o que funciona e o que precisa mudar. A metodologia ainda terá uma segunda prova-piloto em 2027, além de Censo Experimental e teste de homologação antes da operação nacional.

O levantamento definitivo está previsto para ocorrer simultaneamente entre 3 e 7 de julho de 2028, com meia-noite da virada de 2 para 3 de julho como referência nacional.

Até lá, a experiência de Belo Horizonte ajudará a responder uma pergunta que parece estatística, mas é também logística: como encontrar, entrevistar e contar de forma comparável milhões de brasileiros quando o método usado para localizar a maior parte da população começa justamente por uma coisa que eles não têm, um endereço residencial convencional?

Por alguns dias, BH virou o laboratório onde o IBGE começou a testar essa resposta.

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Anna Millard
Anna Millard
Jornalista pela Universidade Federal de Ouro Preto. Tem experiência em jornalismo esportivo, cidades e economia. Passou pelo setor público em assessoria de comunicação e assessoria de imprensa.