Um azeite produzido em uma pequena propriedade de 1,5 hectare em Cristina, no Sul de Minas Gerais, acaba de ser reconhecido como um dos melhores da América do Sul em um dos concursos mais respeitados do mundo.
O Alto da Serra Blend conquistou medalha de ouro no Evo International Olive Oil Contest 2026, realizado em Palmi, na região da Calábria, Itália. Uma das áreas mais tradicionais da cultura do azeite no planeta. E o produto ficou entre os cinco melhores da América do Sul na premiação.
Para um azeite familiar, de escala pequena e origem em um estado não lembrado por olivicultura, o resultado tem um peso que vai muito além do troféu.
O produtor que começou quase do zero
A história do Alto da Serra começa em 2017, quando Alisson Moreira buscou informações na Epamig sobre como cultivar oliveiras na Serra da Mantiqueira.
Ele plantou 340 oliveiras a cerca de 1,5 mil metros de altitude. A primeira produção chegou em 2022 e rendeu apenas 12 litros de azeite. Em 2024, nasceu a marca. Em 2026, a extração chegou a 304 litros e o produto foi premiado na Itália.
Essa progressão é um retrato fiel da olivicultura mineira: jovem, técnica, cuidadosa e cada vez mais séria.
O azeite premiado foi extraído no Campo Experimental da Epamig em Maria da Fé, município que se tornou referência nacional no segmento. Sem essa estrutura pública de pesquisa e extração, boa parte dos pequenos produtores da Mantiqueira simplesmente não teria como competir em qualidade.
O que torna um azeite especial, e por que o mineiro passou no teste
Em concursos internacionais como o Evo, jurados avaliam atributos sensoriais como frutado, amargor, picância, complexidade e equilíbrio. Não existe margem para defeitos.
O Brasil ainda é um país que consome muito azeite mas produz pouco. E o consumidor, em geral, ainda escolhe pelo preço ou pela marca importada. A ideia de que um azeite nacional pode competir com os europeus ainda soa estranha para muita gente.
Mas não deveria. O Alto da Serra Blend acabou de provar que a altitude da Mantiqueira, o frio nos períodos certos e o manejo cuidadoso geram condições reais para um azeite extravirgem de qualidade internacional.
O produto chegou a disputar também o prêmio Raúl C. Castellani, concedido aos melhores azeites da América do Sul no concurso. Não venceu essa etapa, mas entrou numa prateleira rara para produtos brasileiros: a dos reconhecidos internacionalmente.
A Mantiqueira como novo território do azeite brasileiro
A região não é famosa pelo azeite. É famosa pelo queijo, pelo café, pelo frio e pelas cachoeiras. Mas cidades como Cristina, Maria da Fé, Aiuruoca, Delfim Moreira e Baependi estão silenciosamente entrando no mapa nacional da olivicultura.
A combinação de altitude, temperatura, propriedades menores e proximidade com mercados consumidores de renda mais alta cria um cenário favorável. Não para produção em larga escala, mas para azeites de nicho premium.
Segundo a Epamig, Minas já tem cerca de 100 produtores, 25 agroindústrias e 50 marcas próprias ligadas à olivicultura. A safra de 2026 é tratada com otimismo pelos pesquisadores, depois de um ciclo mais fraco em 2025.
O azeite mineiro não vai competir em volume com Espanha, Itália, Grécia ou Portugal. Mas pode disputar valor, território e narrativa de origem.
O que uma medalha na Itália significa para Minas
Um rótulo premiado em Palmi pode abrir portas que o produtor jamais acessaria sozinho. Empórios finos, cartas de restaurantes, lojas especializadas, hotéis-fazenda, experiências gastronômicas e venda direta para consumidores que pesquisam antes de comprar.
Minas já é conhecida pelo café especial, pelo queijo artesanal premiado internacionalmente e pela cachaça de alambique. O azeite começa a entrar nessa lista de produtos que constroem reputação com base em origem, qualidade e identidade de lugar.
Essa é a rota mais inteligente para o estado: não disputar volume, mas disputar valor. Não vender commodity, mas vender história, altitude e cuidado.
O desafio que vem agora é transformar a medalha em mercado. Premiação abre portas, mas não resolve distribuição, padronização, rastreabilidade nem comunicação com o consumidor final.





