Um programa de rádio produzido em Belo Horizonte entrou na disputa pelo Prêmio Jabuti ao transformar livros em assunto cotidiano para os ouvintes. O Universo Literário, da Rádio UFMG Educativa, está entre os dez semifinalistas da categoria Incentivo à Leitura, no eixo Inovação.
A seleção foi anunciada pela Câmara Brasileira do Livro em 29 de setembro. Os cinco finalistas serão conhecidos em 14 de outubro, e a divulgação dos vencedores está prevista para o dia 27, conforme as informações publicadas pela universidade.
O reconhecimento chama atenção para um trabalho que acontece fora das páginas impressas. A candidatura está associada à formação de leitores, campo em que entrevistas, narração e programação cultural podem aproximar o público das obras.
Uma produção diária dedicada aos livros
No ar desde 2005, o Universo Literário é apresentado de segunda a sexta-feira, das 8h às 10h. A programação combina entrevistas, sugestões de leitura e música brasileira, com espaço para diferentes autores e formas de abordar a literatura.
A locução é de Michelle Bruck, e a produção tem a jornalista Jaiane Souza entre seus responsáveis. Thiago França cuida da edição e sonoplastia, enquanto Guilherme Amintas assina a programação musical, segundo a apresentação da equipe divulgada pela UFMG.
A atração passou por uma reformulação em 2022, sob coordenação de Alessandra Dantas e Luiza Glória. Ao comentar a indicação, Jaiane destacou uma “construção que é diária, feita a muitas mãos e com muitos desafios”.
A entrevista pode ser o primeiro contato com uma obra
Uma conversa no rádio oferece caminhos de entrada para quem ainda não conhece determinado livro. O ouvinte pode se interessar por uma pergunta, pelo tema tratado ou pela experiência do autor antes mesmo de decidir procurar a publicação.
Esse tipo de mediação permite trabalhar além do anúncio de lançamento. Ao contextualizar uma obra e discutir suas escolhas, o programa oferece elementos para que o público forme sua própria curiosidade e estabeleça relações com outras leituras.
Isso não significa que a indicação ao prêmio comprove aumento de vendas ou um número específico de novos leitores. O reconhecimento da semifinal recai sobre a iniciativa apresentada, e a divulgação não informa uma medida de conversão da audiência em leitura.
Acervo reúne ciência, ficção e memória da cidade
As edições recentes mostram a variedade de assuntos que podem ser discutidos a partir dos livros. A página do programa reúne conversas sobre literatura infantil ligada à ciência, ficção que imagina um colapso mineral e obras que articulam memória familiar e história de BH.
O conjunto permite perceber uma escolha editorial: tratar a literatura também como ponto de partida para conversar sobre outros temas. Uma narrativa pode abrir discussões sobre ambiente, conhecimento, linguagem ou lembranças da cidade.
Para o público, o acervo oferece uma forma de escolher episódios pelo interesse, sem depender exclusivamente do horário da transmissão. Essa organização também preserva entrevistas para consultas posteriores, ampliando a vida útil de uma conversa que começou na programação diária.
Leitura de “Úrsula” levou o texto integral ao rádio
Entre os projetos especiais da emissora está a leitura coletiva de “Úrsula”, de Maria Firmina dos Reis. A produção foi transmitida sem intervalos em 8 de março de 2026, em uma ação dedicada às mulheres e às duas décadas da rádio.
A iniciativa reuniu 21 mulheres negras com participação na história da emissora. Publicado em 1859, o romance permitiu à produção trabalhar temas como escravização e tráfico de pessoas, além da trama afetiva que conduz a narrativa.
Nesse formato, a relação com a literatura muda: o público ouve a própria obra interpretada. Voz, ritmo e pausas passam a integrar a experiência, aproximando o texto de quem acompanha a transmissão.
A escolha também torna visível o trabalho de produção que existe antes de um especial ir ao ar. Reunir participantes, organizar a leitura e editar o material exige uma preparação diferente daquela de uma entrevista, embora ambas possam fazer parte do incentivo à leitura.
O que a semifinal representa para a mídia local
A presença do programa no Jabuti amplia a visibilidade de uma produção cultural realizada em BH. Também oferece um exemplo concreto de como uma emissora universitária pode dialogar com públicos interessados em livros, mesmo fora do ambiente acadêmico.
A etapa ainda não equivale à conquista do prêmio, e o próximo resultado está marcado para 14 de outubro. Até lá, o público pode conhecer entrevistas e conteúdos já disponíveis na página do Universo Literário.
Para acompanhar o trabalho, não é necessário esperar a definição do Jabuti. O acervo permite começar por um assunto familiar e, a partir dele, descobrir autores e obras apresentados pela equipe.


