O Palmeiras transformou uma caminhada que parecia sob absoluto controle continental em um inesperado teste de sobrevivência. Na noite desta quarta-feira, o Verdão foi surpreendido e perdeu por 1 a 0 para o Cerro Porteño, em pleno Allianz Parque, desperdiçando a oportunidade de carimbar o passaporte antecipado para as oitavas de final da Copa Libertadores.
O gol do atacante argentino Pablo Vegetti causou um estrago pesado que ultrapassa a mera perda de três pontos na tabela. O revés arrancou o Palmeiras da liderança isolada do Grupo F, quebrou uma das sequências de invencibilidade como mandante mais impressionantes da história da competição e expôs um esvaziamento técnico e físico alarmante na linha de frente do técnico Abel Ferreira.
Com o desfecho, o Cerro Porteño escalou para a liderança com 10 pontos, empurrando o Palmeiras para o segundo posto, com 8 pontos. O cenário ganhou contornos dramáticos com a vitória do Junior Barranquilla por 3 a 2 sobre o Sporting Cristal, resultado que manteve os peruanos vivos na terceira colocação com 6 pontos, enquanto os colombianos respiram com 4.
A calculadora do Grupo F: O que o Verdão precisa?
Apesar do forte abalo anímico sofrido nas arquibancadas, o veredito matemático impede qualquer leitura de terra arrasada. O Palmeiras mantém o destino sob o seu próprio controle e carimbará a vaga na fase de mata-mata sem depender de nenhum resultado paralelo, desde que cumpra o seu dever de casa.
No dia 28 de maio, às 19h, o Palmeiras recebe o Junior Barranquilla novamente no Allianz Parque. A linha de corte para garantir o passaporte rumo às oitavas opera em três cenários objetivos:
- Vitória Alviverde: Garante a classificação incontestável. O Palmeiras atinge 11 pontos e avança no G2, podendo inclusive reaver a liderança caso o Cerro Porteño tropece diante do Sporting Cristal no Paraguai.
- Empate em Casa: Leva o Palmeiras aos 9 pontos. A vaga só seria ameaçada caso o Sporting Cristal vença o Cerro em Assunção e consiga tirar uma expressiva diferença no saldo de gols — hoje, o Verdão ostenta saldo positivo de +2 contra -1 dos peruanos.
- Derrota no Allianz: Ativa o sinal de drama absoluto. O Palmeiras estaciona nos 8 pontos e precisará secar obrigatoriamente o Sporting Cristal. Uma vitória simples dos peruanos no Paraguai empurraria o Verdão para a terceira colocação, sacramentando uma eliminação vexatória na fase de grupos.
O fim do tabu de 5 anos e o ataque desconfigurado
A derrota para os paraguaios rasgou uma estatística de orgulho institucional. O Palmeiras ostentava uma invencibilidade caseira na Libertadores que já perdurava por cinco anos.
Segundo a radiografia histórica desenvolvida pelo Moon BH, o tabu acumulava números impositivos:
Eram 28 partidas consecutivas sem nenhuma derrota como mandante no torneio continental, registrando uma folha de 19 vitórias, 9 empates e um aproveitamento avassalador de 78,6%. O colapso da fortaleza alviverde evidenciou uma equipe previsível, lenta na circulação de bola e sem a fome vertical que marcou os anos mais vitoriosos da Era Abel Ferreira.
A raiz do problema repousa estritamente nas planilhas do departamento médico. O Palmeiras sofre com um crônico “apagão” de velocidade e profundidade pelos corredores laterais.
Felipe Anderson (lesão muscular na coxa) e o paraguaio Ramón Sosa (ruptura ligamentar no tornozelo) desfalcaram o time simultaneamente após o confronto contra o Cruzeiro. Com a joia Vitor Roque indisponível e Maurício atuando em uma faixa mais cerebral de armação, faltou ao time o jogador de drible vertical e aceleração curta capaz de empurrar a linha defensiva do Cerro para trás.
O centroavante Flaco López acabou isolado, assistindo a uma insistente e inócua troca de passes laterais que facilitou a barreira montada pelos paraguaios.
O freio de mão em Paulinho e o planejamento da janela
O retorno progressivo do atacante Paulinho acendeu o termômetro de esperança da torcida, mas o próprio clube adota uma postura de total frieza científica. O camisa 10, contratado junto ao Atlético-MG em uma transação histórica de R$ 162 milhões, vem de um calvário médico de mais de 300 dias após grave cirurgia na perna direita.
Abel Ferreira reiterou que o atleta não reúne condições clínicas para suportar o desgaste de uma partida inteira de Libertadores. Forçá-lo a iniciar como titular contra o Junior Barranquilla representaria um risco biomecânico inaceitável para o Núcleo de Saúde e Performance (NSP). A melhor versão de Paulinho, assim como as de Sosa e Felipe Anderson, só será entregue no segundo semestre pós-Mundial.
A quebra de rendimento no Allianz Parque promete alterar as prioridades da presidente Leila Pereira na janela de transferências de julho. Embora o monitoramento original estivesse focado na repatriação do zagueiro Nino e na busca por um volante posicional para liberar Andreas Pereira, a escassez ofensiva saltou aos olhos da comissão técnica.
O Palmeiras não necessita de mais apostas de composição de elenco; o time carece de um ponta agudo de explosão imediata e drible contundente para atuar enquanto o departamento médico esvazia. O projeto de futebol de Abel Ferreira não ruiu, mas sofreu uma dura advertência tática. Para espantar a crise e restabelecer a paz na Academia de Futebol, o Verdão precisará resgatar a sua tradicional casca competitiva e fazer do Junior Barranquilla o primeiro degrau da reconstrução do orgulho alviverde.


