HomeEsportesFlamengoFlamengo transformou 100 mil votos em pelo menos R$ 12 milhões em...

Flamengo transformou 100 mil votos em pelo menos R$ 12 milhões em camisas

Publicado em

Quando o Flamengo lançou um concurso para que a própria torcida desenhasse uma camisa, o resultado poderia terminar simplesmente em uma ação de engajamento. Menos de dois meses depois, os números mostram que a operação conseguiu atravessar uma fronteira mais interessante: participação virou venda em escala milionária.

O Manto da Nação recebeu mais de 8 mil desenhos, ultrapassou 100 mil votos únicos de torcedores de mais de 120 países e acabou reconhecido pelo Guinness World Records como o concurso de design de camisa esportiva com maior participação popular do mundo.

- Publicidade -

Mas o número comercial talvez explique melhor o tamanho da operação.

A camisa vencedora, batizada de Urubu de Lima, ultrapassou 50 mil unidades vendidas em poucos dias. Considerando apenas o menor preço promocional divulgado pelo clube, de R$ 239,99 por unidade na compra de duas ou mais peças, isso representa pelo menos R$ 11,99 milhões em valor bruto de vendas ao consumidor.

No preço cheio de R$ 299,99, 50 mil unidades equivaleriam a praticamente R$ 15 milhões.

- Publicidade -

O valor efetivamente recebido pelo Flamengo não foi divulgado e não deve ser confundido com essa conta. Custos de fabricação, logística, impostos e a estrutura comercial da operação interferem na receita líquida do clube.

Ainda assim, a dimensão das vendas mostra que o recorde de participação teve uma consequência financeira concreta.

De 100 mil votos para 50 mil compradores

Segundo o Flamengo, mais de 100 mil votos foram registrados durante a escolha do modelo vencedor.

- Publicidade -

O desenho criado pelo torcedor Marcelo Gluz foi inspirado nas Linhas de Nazca, no Peru, e na relação de Lima com as conquistas rubro-negras da Libertadores de 2019 e 2025.

Um dia depois do lançamento comercial, mais de 20 mil unidades já haviam sido vendidas.

Poucos dias depois, o número superou 50 mil.

Existe uma diferença importante entre os dois indicadores. Votar em uma camisa exige pouco comprometimento financeiro. Comprar uma peça de aproximadamente R$ 240 a R$ 300 exige uma decisão econômica real.

O fato de o número de vendas ter alcançado uma escala equivalente a quase metade do total de votos ajuda a mostrar a capacidade do Flamengo de transformar engajamento digital em consumo.

Primeiro lote acabou e Flamengo precisou produzir mais

Outro indicador apareceu depois.

O primeiro lote da Urubu de Lima se esgotou e o clube anunciou nesta terça-feira (8) que conseguiu viabilizar uma nova produção da camisa.

De acordo com o comunicado oficial, as novas unidades ficarão disponíveis somente enquanto durar a quantidade acordada com a fábrica parceira, com previsão de entrega ainda em 2026.

A necessidade de um segundo lote ajuda a diferenciar sucesso de campanha de sucesso de produto.

O Guinness mede a mobilização produzida durante a votação. A reposição do estoque mede outra coisa: a demanda permaneceu mesmo depois que a campanha terminou.

Flamengo transformou consumidor em participante

Foto:Adriano Fontes/Flamengo

O mecanismo por trás do Manto da Nação também ajuda a explicar o resultado.

Normalmente, um clube desenvolve um uniforme, apresenta o produto e tenta convencer seus torcedores a comprá-lo. Desta vez, o Flamengo colocou o consumidor dentro do processo antes mesmo de existir uma camisa vencedora.

Primeiro, torcedores enviaram desenhos. Depois, outros milhares participaram da votação. O modelo escolhido foi transformado em produto e, posteriormente, o próprio clube adaptou o lançamento para oferecer também uma versão nas cores tradicionais após pedidos da torcida.

A camisa deixou de ser apenas algo vendido ao rubro-negro. Passou a carregar a narrativa de ter sido criada e escolhida pela própria torcida, isso aumenta a sensação de pertencimento e cria uma história comercial difícil de reproduzir em um lançamento convencional.

Camisa já era peça importante na estratégia financeira

No início do ano, o Moon BH mostrou como a venda de camisas se tornou uma das engrenagens do contrato comercial do clube. Em outras frentes, o Rubro-Negro vem tentando monetizar audiência por meio de licenciamentos, produtos próprios, programas de relacionamento e expansão internacional.

A própria Urubu de Lima traz um exemplo dessa integração.

Quem compra uma unidade recebe um mês do Nação Sem Fronteiras. Na compra de duas ou mais, novos associados recebem três meses de acesso ao programa de sócio-torcedor.

Ou seja, a camisa também funciona como porta de entrada para outro produto comercial do clube.

O recorde mundial, portanto, talvez seja a parte mais chamativa da história, mas não necessariamente a mais relevante.

O Flamengo conseguiu colocar mais de 100 mil pessoas para escolher um produto e, dias depois, vendeu mais de 50 mil unidades dele. Mesmo utilizando o menor preço promocional divulgado, são quase R$ 12 milhões movimentados em camisas.

Mais do que provar o tamanho da torcida, o Manto da Nação mostrou quanto essa participação pode valer quando o clube consegue transformá-la em produto.

- Publicidade -
Anna Millard
Anna Millard
Jornalista pela Universidade Federal de Ouro Preto. Tem experiência em jornalismo esportivo, cidades e economia. Passou pelo setor público em assessoria de comunicação e assessoria de imprensa.