O Cruzeiro passou boa parte de 2026 tratando a situação de Gabigol como um problema transferido para o futuro. Emprestado ao Santos até dezembro, o atacante saiu dos planos imediatos da Raposa e ainda permitiu que parte de seu enorme custo salarial fosse compartilhada com o clube paulista.
Agora, o próprio jogador recolocou o assunto no centro do planejamento de 2027. Gabigol afirmou que considera pequena a possibilidade de continuar no Santos e indicou que ainda acredita no projeto cruzeirense, clube com o qual possui contrato até dezembro de 2028.
“Eu ainda acho que o Cruzeiro é um projeto que vai ser vencedor”, afirmou o atacante em entrevista repercutida por O TEMPO. A declaração muda pouco juridicamente, porque o vínculo já previa o retorno, mas muda bastante a maneira como uma situação aparentemente distante passa a pressionar novamente o planejamento esportivo.
Uma conta de R$ 2,5 milhões por mês
O tamanho do problema começa pelo salário. Quando Cruzeiro e Santos fecharam o empréstimo, o Moon mostrou que os vencimentos de Gabigol estavam na casa de R$ 2,5 milhões mensais, com divisão de 50% para cada clube durante o acordo.
Isso significa que a Raposa continua desembolsando aproximadamente R$ 1,25 milhão por mês por um jogador que não utiliza. Ao final do empréstimo, caso nenhuma nova negociação seja construída, será necessário decidir novamente como absorver ou redistribuir uma obrigação salarial de um dos contratos mais pesados do elenco.
O cenário é ainda mais interessante porque o problema não envolve um jogador esportivamente irrelevante. Gabigol marcou 17 gols em 37 partidas pelo Santos em 2026, segundo O TEMPO, e chega à discussão sobre o futuro como o principal artilheiro santista da temporada.
A boa fase cria uma situação contraditória. Quanto melhor Gabigol joga, mais argumentos esportivos oferece para uma eventual reintegração, mas também aumenta seu poder de negociação em qualquer discussão sobre o próximo destino.
O Cruzeiro de 2027 não é o mesmo que ele deixou

Existe ainda uma segunda questão: onde colocar Gabigol? O Kaio Jorge se consolidou como referência ofensiva, e o Cruzeiro passou a montar seu projeto esportivo ao redor de um elenco no qual o antigo camisa 9 deixou de ocupar papel central.
O técnico Artur Jorge também já deixou claro publicamente que o clube pretende tratar o mercado com maior controle financeiro. Em julho, ao falar sobre contratações, resumiu a política da Raposa dizendo que o clube não estava de “torneira aberta para gastar”.
Reintegrar Gabigol, portanto, não seria simplesmente ganhar um reforço sem pagar transferência. Seria reabrir uma discussão de hierarquia, espaço no elenco, minutos em campo e custo salarial justamente quando o Cruzeiro tenta tornar sua folha mais eficiente.
A presença de Kaio Jorge torna o desenho ainda mais complexo. Manter dois centroavantes de grande peso financeiro pode ser um luxo interessante esportivamente, mas exige que ambos aceitem uma divisão de protagonismo que não existia quando Gabigol chegou a Belo Horizonte.
Em julho, o Cruzeiro pensava diferente
A mudança mais curiosa aparece quando o cenário atual é comparado ao de apenas dois meses atrás. Em julho, o Moon apurou que o Cruzeiro não trabalhava com a possibilidade de reintegrar Gabigol naquele momento, mesmo diante das dificuldades financeiras do Santos para garantir sua permanência.
A saída havia ajudado a reduzir um desgaste interno e reorganizar o ambiente. Agora, o atacante não apenas continua valorizado esportivamente como passou a falar publicamente sobre um reencontro com o clube.
Isso não significa que Gabigol necessariamente vestirá a camisa celeste novamente. Santos e Cruzeiro ainda têm meses para negociar, e uma venda, novo empréstimo ou acordo envolvendo outro clube pode mudar completamente o roteiro.
O que mudou é que a conta deixou de ser abstrata. O Cruzeiro acreditava ter empurrado para 2027 uma decisão que poderia ser resolvida antes de chegar à Toca da Raposa, mas Gabigol acaba de lembrar que existe outra possibilidade: voltar, cumprir o contrato e obrigar a diretoria a descobrir onde encaixar um jogador de R$ 2,5 milhões por mês.


