A Toca da Raposa tem buscado esse perfil desde 2025. Até agora, a posição segue em aberto.
Dois anos de tentativas. Duas janelas frustradas. E o mesmo buraco no elenco. A demanda do Cruzeiro por um zagueiro canhoto não é novidade de bastidores nem invenção da atual gestão: é uma carência estrutural que persiste, atravessa treinadores e continua incomodando quem monta o time. Com a janela de meio do ano prevista para abrir no dia 20 de julho, a história se repete. Só que desta vez o contexto exige uma solução diferente.
Para entender o problema, basta olhar o que Artur Jorge tem disponível na zaga. Fabrício Bruno ocupa a direita com autoridade. Jonathan Jesus cresceu na temporada e virou titular. João Marcelo perdeu espaço e deve sair. Lucas Villalba e os jovens Bruno Alves e Janderson completam o grupo. O ponto cego é óbvio: nenhum desses zagueiros é canhoto de nascença. Villalba até jogou pela esquerda em alguns momentos, mas isso era mais costume na época de Argentinos Juniors do que uma solução real para um Cruzeiro que joga Libertadores, Copa do Brasil e Brasileirão ao mesmo tempo.
O que a ausência custa dentro de campo
Não é questão estética. É tática.
O futebol de Artur Jorge depende de saída de bola organizada e rápida. O treinador português quer linhas de passe limpas, inversões de lado ainda na primeira fase de construção e meias recebendo em condições de criar. Com um zagueiro destro forçado a jogar à esquerda, o passe natural fica torto: ele sempre vai optar pela diagonal interna, encurtando o jogo e facilitando a marcação adversária. Um canhoto legítimo nessa função abre o campo pelo corredor esquerdo de um jeito que nenhuma adaptação consegue imitar.
O Moon BH acompanha esse debate desde que Artur Jorge chegou à Raposa. A exigência por um canhoto não é capricho técnico do treinador: é a peça que falta para que Gerson e Matheus Pereira recebam a bola em situações mais confortáveis. Sem ela, a saída de bola continua dependendo de gambiarras.
A novela que começou em 2025

A primeira tentativa de resolver essa posição foi Valentín Gómez, jovem zagueiro argentino do Vélez Sarsfield. Canhoto, com passagem pela seleção argentina Sub-20 e titular absoluto no Vélez em 2024, ele tinha o perfil que a diretoria queria. A negociação chegou a ser dada como encaminhada pela imprensa argentina, com valores próximos de 9 milhões de euros. Mas não foi adiante pelo lado brasileiro. O Cruzeiro recuou, e Gómez acabou assinando com o Real Betis, da Espanha. A lacuna ficou.
Em 2026, a busca recomeçou com dois nomes: Alexander Barboza, do Botafogo, e Igor Júlio, do Brighton. O argentino Barboza, de 31 anos, tem o perfil físico e a liderança que qualquer zagueiro de nível precisa ter. Trabalhou com Artur Jorge no Botafogo campeão da Libertadores em 2024, o que elimina o tempo de adaptação ao estilo do treinador. Só que o Botafogo não facilitou a negociação, e o Palmeiras entrou em cena. Barboza acabou sendo perdido antes mesmo de a janela abrir.
Com o “chapéu” do Palmeiras consumado, a diretoria celeste girou para Igor Júlio. Mineiro de Bom Sucesso, no Sul do estado, o zagueiro de 28 anos tem carreira construída integralmente na Europa: passou por Áustria, Itália e finalmente Inglaterra, onde acumulou passagens por Brighton e West Ham. Não esconde que é cruzeirense, chegou a dizer publicamente que seu sonho de retorno ao Brasil seria para defender o clube que torce. A vontade do jogador existe. A negociação, porém, complicou.
Por que a contratação ainda não saiu
O Brighton pede pelo menos 6 milhões de euros pelo zagueiro, que tem contrato até junho de 2027. A Raposa chegou a apresentar uma proposta inicial abaixo disso, por volta de 5 milhões de euros, e a negociação avançou ao ponto de ser considerada próxima do fim em maio. Mas a diretoria celeste estabeleceu uma condição: só contratará um zagueiro se antes vender um do elenco atual.
João Marcelo está no radar do Internacional. Jonathan Jesus desperta interesse do Betis, curiosamente o mesmo clube que levou Valentín Gómez em 2025. Se uma dessas saídas se concretizar, abre espaço financeiro e de folha para encerrar a novela de Igor Júlio. Se não, o Cruzeiro entra em agosto, com decisão de Copa do Brasil contra o Flamengo no Maracanã, ainda dependendo da mesma estrutura defensiva de hoje.
A urgência do segundo semestre
O calendário não espera. Em agosto, tem confronto direto com o Flamengo pela Copa do Brasil. No Brasileirão, a briga pelo G4 exige consistência defensiva ao longo de muitos jogos. E a Libertadores, objetivo declarado da diretoria, coloca o time contra adversários que explorarão qualquer assimetria na saída de bola.
A ausência de um zagueiro canhoto é tolerável num time que joga poucos jogos por semana. Num calendário como o do Cruzeiro no segundo semestre, ela vira passivo acumulado.
A boa notícia é que Igor Júlio entra em sua última temporada cheia de contrato em 2027, o que diminui o poder de barganha do Brighton e aumenta o interesse do jogador em resolver a situação agora. A janela abre em 20 de julho. Até lá, a diretoria tem três semanas para destravar uma venda interna e fechar o que vem tentando resolver há dois anos.
Paciência tem limite. E o calendário não tem.





