Criado na Toca, revelado aos poucos e depois empurrado para fora pela lógica implacável do mercado. O Cruzeiro está muito perto de concretizar a venda do lateral-esquerdo Kaiki Bruno ao Como, da Itália, em uma operação que pode render ao clube até R$ 89 milhões. Os exames médicos já foram marcados em território italiano, e o negócio é tratado nos bastidores como praticamente definido.
O formato escolhido foi o empréstimo até junho de 2027 com cláusula de compra obrigatória ao término do período. Na prática, já é uma venda. O Como desembolsa 2 milhões de euros pelo período de cessão e, ao acionar a obrigação de compra, completa uma operação total de 14 milhões de euros fixos mais bônus. O jornalista Fabrizio Romano confirmou o acerto e informou que a viagem de Kaiki à Itália já tem data marcada.
O Cruzeiro tentou segurar o jogador. Tentou com renovação, tentou com aumento salarial, tentou com o argumento de continuidade num time que briga em três frentes. Não adiantou. A diferença entre o que a SAF oferecia e o que o estafe do atleta pedia era larga demais, e o interesse europeu só foi crescendo ao longo dos meses.
Como o Como chegou à frente
O clube italiano não chegou ontem. Cesc Fàbregas, técnico do Como, pediu Kaiki no início de 2026, no meio da temporada europeia. As conversas avançaram, chegaram perto de um acerto, mas o Cruzeiro recuou naquele momento. A diretoria queria manter o titular e rejeitar a proposta inicial foi uma decisão legítima, especialmente com o time ainda disputando Libertadores e Copa do Brasil.
O problema é que o tempo passou, o mercado continuou olhando e o Cruzeiro ficou sem a renovação assinada. O Real Betis, da Espanha, entrou na disputa com uma proposta oficial. O Barcelona chegou a monitorar a situação. O Como, porém, foi mais ágil e apresentou condições melhores para todas as partes. O lateral, de 23 anos, recebe 20% de todos os valores pagos ao Cruzeiro durante o empréstimo, o que também pesou na decisão.
Quando um jogador já chegou à Seleção Brasileira, já tem interesse de Barça e Betis e ainda assim o Como fecha primeiro, é sinal de que a proposta italiana era boa. Boa o suficiente para convencer o jogador de que esse era o momento certo.
O que o Cruzeiro perde
Kaiki Bruno chegou à Toca da Raposa 1 na infância, para o sub-11. Foram mais de uma década de formação até a estreia como profissional em 2021, diante do Tombense, pelo Mineiro. O caminho até se firmar como titular não foi linear. Em 2023 ainda disputava posição com Marlon. Foi em 2025 que a titularidade veio de vez, e aí o jogador não olhou mais para trás.
São 135 jogos pelo clube, dois gols e dez assistências. Números que não contam tudo, porque Kaiki também se tornou referência defensiva, um dos laterais mais equilibrados do Brasil em ambas as fases. Em 2026, entrou em campo pela Seleção Brasileira, ainda que por poucos minutos. A presença na pré-lista de Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo mostrou o nível que o jogador atingiu.
O Cruzeiro perde, portanto, seu lateral-esquerdo titular em plena disputa de Libertadores e Copa do Brasil, além do Brasileirão. A saída de Kauã Prates para o Borussia Dortmund já havia reduzido as opções no setor. Com Kaiki indo embora também, a lateral esquerda da Raposa passa por uma virada completa de geração em poucos meses.
A reposição já começou, mas não é equivalente
A diretoria se antecipou. Gabriel Rojas, contratado após passagem pelo Racing, é a principal aposta para ocupar a vaga. Lucas Villalba também entra como alternativa quando necessário. São jogadores com perfil diferente de Kaiki, o que significa que Artur Jorge precisará reorganizar algumas referências táticas no setor.
Rojas chega sem o mesmo histórico de rodagem no futebol sul-americano de alto nível que Kaiki já tinha consolidado. O tempo de adaptação é uma variável real, especialmente em jogos de mata-mata. A Copa do Brasil e a Libertadores não dão margem para erros de posicionamento ou demora na leitura de jogo.
Esse ponto merece atenção. O Cruzeiro vendeu bem, financeiramente. Mas vendeu em um momento de alta competição interna, e a reposição que chegou ainda é uma incógnita em campo.
O Como que recebe Kaiki

Não é qualquer clube. O Como, comandado por Fàbregas, garantiu vaga para a próxima Liga dos Campeões e tem investido de forma consistente para montar um elenco competitivo na Europa. Alberto Moreno, ex-Liverpool e Villarreal, era o titular da lateral-esquerda e saiu ao fim do contrato. Kaiki chega, assim, não como reserva ou aposta para o futuro. Chega como dono da vaga.
Para um lateral de 23 anos que nunca jogou fora do Brasil, pular direto para uma equipe que disputará Champions League é um salto enorme. O tipo de salto que pode definir carreiras para o bem ou para o mal. Quem acerta nesse ambiente, cresce exponencialmente. Quem não encontra ritmo logo, some do mapa. O Moon BH torce para que seja o primeiro caminho.
Um ciclo que termina como deveria
Tem algo que o torcedor do Cruzeiro precisa aceitar como parte do novo modelo do clube: a Raposa virou exportadora de talentos de alto nível. Não é derrota. É a consequência direta de uma base sólida, de trabalho de formação e de uma SAF que aprendeu a valorizar antes de vender.
Kaiki custou zero reais para o Cruzeiro. Vai render quase 90 milhões. Parte desse dinheiro já está sendo reinvestido, com Rojas dentro e possivelmente mais peças chegando até o fechamento da janela. O clube precisa de volume de elenco para sustentar três competições, e esse capital pode ajudar a construir isso.
O que não dá é para fingir que a saída não dói. Kaiki era do Cruzeiro de um jeito que vai além do contrato. Era da Toca. Era do time. E agora, como tantos outros antes dele, vai ser do futebol europeu.
O próximo capítulo se escreve com Rojas na faixa e Artur Jorge reorganizando as peças. A torcida vai cobrar como sempre cobra. E tem razão.





