O Banco Digimais, instituição financeira controlada por Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, foi alvo de uma operação da Polícia Federal nesta terça-feira, 23 de junho, em investigação que apura suspeitas de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. Para torcedores do Cruzeiro, o nome do banco acende uma memória específica: foi essa mesma instituição que ocupou o espaço principal da camisa celeste durante a temporada de 2019 — o mesmo ano do rebaixamento histórico do clube para a Série B do Campeonato Brasileiro.
A coincidência entre a operação e o passado cruzeirense não implica qualquer relação direta entre o clube e as investigações atuais. Mas recoloca em foco um contrato que, à época, foi vendido como moderno e terminou associado à crise mais grave da história recente da Raposa.
O contrato anunciado em Buenos Aires entre Cruzeiro e Digimais
O acordo entre Cruzeiro e Banco Renner — nome da instituição antes de adotar a marca Digimais — foi firmado e anunciado em março de 2019, na Argentina, às vésperas de uma partida da equipe pela Copa Libertadores. A escolha do cenário já transmitia a intenção de associar a parceria a uma fase de protagonismo continental.
O banco apresentava o produto Digi+ como uma conta digital voltada ao torcedor cruzeirense. A proposta era posicionar a marca no espaço de patrocinador máster, substituindo a Caixa Econômica Federal, que havia ocupado aquela posição anteriormente.
O contrato tinha dois eixos. O primeiro era um valor fixo estimado em R$ 11 milhões pela exposição da marca na camisa durante 2019. O segundo, apresentado como o grande diferencial, era uma parceria de longo prazo baseada em receitas variáveis: o Cruzeiro receberia 50% dos lucros gerados pelas contas digitais abertas por torcedores, com meta de 1 milhão de clientes no primeiro ano.
A diretoria da época projetou publicamente ganhos entre R$ 100 milhões e R$ 150 milhões, dependendo do desempenho do produto bancário. O discurso oficial falava em transformar a torcida em base de uma operação financeira e em superar o modelo tradicional de patrocínio de camisa.
A distância entre promessa e resultado
A meta de 1 milhão de contas digitais mostrou-se incompatível com a realidade do clube e do mercado. O Cruzeiro tinha, naquele período, uma base de sócios muito inferior a esse número, e convencer torcedores a abrir conta em uma instituição de baixo reconhecimento nacional exigiria estrutura comercial, confiança e tempo que a parceria não conseguiu mobilizar.
Ao fim de 2019, reportagens especializadas indicaram que o patrocínio rendeu pouco mais de R$ 10 milhões ao clube. Parte desse montante teria relação com empréstimos realizados pelo banco e posteriormente compensados como publicidade — detalhe que alimentou críticas sobre a estrutura real do acordo.
Houve ainda uma comparação que piorou a percepção do contrato. Zezé Perrella, que assumiu papel de gestão no futebol do Cruzeiro durante a crise, declarou que o clube havia recusado uma proposta de R$ 12 milhões do Banco BS2, antigo Bonsucesso, para fechar com o Banco Renner em um modelo menos direto, lastreado em royalties e receitas futuras.
Em outubro de 2019, o Cruzeiro publicou nota esclarecendo que o banco permaneceria como patrocinador máster até 31 de dezembro, mas deixaria o espaço principal da camisa em 2020. A marca seguiria em posição secundária dentro do contrato de longo prazo — ajuste que sinalizava que o formato original não havia funcionado como esperado.
A operação da PF e o perfil do banco
A Operação Miragem, deflagrada pela Polícia Federal nesta terça-feira, apura suspeitas de gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em demonstrativos contábeis e operações vedadas pela legislação do Sistema Financeiro Nacional. Segundo a PF, as investigações foram subsidiadas por relatórios do Banco Central, e a suspeita é de que os investigados teriam manipulado registros contábeis e regulatórios para ocultar a real situação financeira da instituição.
A Justiça Federal autorizou nove mandados de busca e apreensão em São Paulo, além de quebra de sigilo bancário e fiscal e bloqueio de bens e valores de até R$ 670 milhões.
Edir Macedo é acionista do banco desde 2009, quando a instituição ainda operava sob o nome de Banco Renner. Ele assumiu o controle total em 2020, período em que a instituição passou por reestruturação e adotou o nome Digimais. Antes da operação policial, o banco já vivia um momento delicado: em abril deste ano, o BTG Pactual assinou acordo para adquirir o controle da instituição, em operação ainda sujeita a aprovações regulatórias e a etapas vinculadas ao Fundo Garantidor de Créditos.





