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Todo mundo acha que entende de comunicação

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Existe uma profissão curiosa: a comunicação. Curiosa porque, aparentemente, basta ter um celular na mão, uma conta em uma rede social e acesso ao ChatGPT para se tornar especialista.

Se cada um cuidasse da área para a qual estudou, se preparou e construiu experiência, talvez o trabalho fosse muito mais leve, e, principalmente, os resultados fossem melhores.

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Ninguém entra em uma sala de cirurgia e começa a sugerir ao médico onde ele deveria fazer a incisão. Ninguém chega diante de um engenheiro e resolve recalcular uma estrutura porque “acha que ficaria melhor assim”. Mas basta abrir uma reunião de comunicação para surgir uma verdadeira banca de especialistas.

Todo mundo entende de cor.

Todo mundo entende de fonte.

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Todo mundo sabe qual foto funciona.

Todo mundo tem certeza sobre o melhor horário para postar.

Todo mundo sabe qual frase “vai viralizar”.

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E agora temos uma nova categoria: os consultores de ChatGPT.

A inteligência artificial trouxe uma transformação extraordinária para a comunicação, e eu sou um grande defensor do seu uso. Ela acelera processos, amplia possibilidades, ajuda na análise de informações, na construção de ideias e na produtividade.

Mas existe uma diferença enorme entre usar uma ferramenta e dominar uma profissão.

Digitar um comando no ChatGPT não transforma ninguém automaticamente em jornalista, publicitário, estrategista, designer ou profissional de marketing. Da mesma maneira que pesquisar sintomas na internet nunca transformou ninguém em médico.

A inteligência artificial pode produzir dez opções de uma frase em segundos. O profissional de comunicação precisa saber qual delas usar, para quem, em qual momento, em qual canal e com qual objetivo.

É aí que mora a diferença.

Comunicação não é gosto pessoal

Talvez esse seja um dos maiores problemas da nossa área: muita gente confunde comunicação com preferência.

“Eu não gostei dessa cor.”

“Eu colocaria essa frase maior.”

“Minha esposa achou essa foto melhor.”

“Perguntei para um amigo e ele faria diferente.”

Tudo isso pode ser opinião legítima. Mas opinião não é necessariamente estratégia.

Comunicação profissional não deveria ser construída simplesmente em torno do “eu gostei” ou “eu não gostei”. Ela precisa responder a perguntas muito mais importantes:

Funciona para o público? Está coerente com o posicionamento? A mensagem está clara? Gera compreensão? Provoca a reação que buscamos? Ajuda a alcançar o objetivo definido?

Porque uma peça pode não ser a sua favorita e, ainda assim, funcionar perfeitamente para quem precisa recebê-la.

Por trás de uma frase existe estratégia

Quem olha de fora muitas vezes enxerga apenas uma postagem, uma arte, um vídeo ou uma frase.

Quem trabalha com comunicação precisa enxergar contexto.

Precisa entender público, linguagem, reputação, posicionamento, timing, narrativa, risco, alcance, frequência e objetivo.

Uma palavra pode mudar uma interpretação. Uma imagem pode aproximar ou afastar. Um vídeo publicado no momento errado pode perder completamente sua força. Uma declaração aparentemente inocente pode produzir uma crise.

Comunicação não é simplesmente “fazer um post bonito”.

É construir percepção.

E percepção interfere em reputação, confiança e decisão.

A inteligência artificial não substitui o repertório

O ChatGPT e outras ferramentas de inteligência artificial estão mudando profundamente a maneira como trabalhamos. Negar isso seria ignorar uma das maiores transformações tecnológicas do nosso tempo.

Mas existe algo que nenhuma ferramenta entrega pronta: repertório.

Repertório vem de estudo, experiência, erros, acertos, crises enfrentadas, campanhas realizadas, reuniões intermináveis, decisões difíceis e anos observando como pessoas reagem às mensagens.

A IA pode sugerir caminhos.

Quem precisa decidir o caminho continua sendo gente.

E quanto mais poderosa fica a tecnologia, mais importante se torna ter profissionais preparados para fazer as perguntas certas, interpretar respostas e tomar decisões.

Talvez o futuro não seja uma disputa entre pessoas e inteligência artificial.

Será uma disputa entre quem sabe usar inteligência artificial com conhecimento e quem acredita que apenas ter acesso a ela já é conhecimento.

Respeitar especialidades também é gestão

Uma boa equipe não é aquela em que todo mundo decide tudo.

É aquela em que todos contribuem, mas existe confiança na responsabilidade técnica de cada área.

Ouvir opiniões é importante. Trabalhar de forma integrada é fundamental. Questionar também faz parte.

O problema começa quando colaboração vira interferência e opinião pessoal passa a valer mais do que conhecimento técnico.

Quem contrata profissionais precisa permitir que eles sejam profissionais.

Se cada um respeitasse um pouco mais a especialidade do outro, talvez tivéssemos menos reuniões discutindo gosto pessoal e mais tempo discutindo resultado.

No final, comunicação não precisa de mais gente dizendo:

“Eu acho.”

Precisa de gente preparada para explicar:

“Eu recomendo isso, e aqui estão as razões.”

Porque ferramenta todo mundo pode ter.

Experiência, estratégia e responsabilidade sobre o resultado são outra história.

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Rafael Angeli
Rafael Angeli
Especialista em Comunicação, Marketing Digital e Inteligência Artificial | Gestão Estratégica | Transformação Digital