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Como um jovem sem internet, sem celular e morando em palafitas consegue passar em uma universidade federal

A ideia de que “sem internet não dá para estudar” parece óbvia, mas não é totalmente precisa. A internet amplia de forma significativa o acesso a conteúdos educacionais, inscrições, simulados, materiais atualizados e acompanhamento de resultados. Ainda assim, a aprovação em uma universidade federal pode ocorrer mesmo sem conexão doméstica, quando entram em cena fatores como escola atuante, rotina disciplinada, uso de materiais impressos, apoio institucional e estratégias de estudo offline.

Isso não é hipótese. Recentemente, ganhou destaque o caso de uma estudante ribeirinha do arquipélago do Marajó (PA) que não possuía celular nem acesso à internet em casa e só soube da aprovação porque a diretora da escola foi pessoalmente até sua residência para comunicar o resultado. A vaga foi no curso de Letras de uma universidade federal.

Outro caso, também no Pará, mostrou uma candidata que acompanhou a divulgação do resultado pelo rádio, esperando ouvir seu nome entre os aprovados.

Histórias como essas chamam atenção porque são exceções. Elas evidenciam que, embora a aprovação seja possível sem acesso digital pleno, o caminho é significativamente mais complexo e exige esforços adicionais que não deveriam ser necessários.

Quando a aprovação de um estudante vira notícia por causa da ausência de internet ou das condições precárias de moradia, o destaque não está apenas na conquista individual, mas na desigualdade de acesso às ferramentas educacionais básicas. No contexto atual, a conectividade se tornou um elemento estrutural do processo de aprendizagem, especialmente no ensino médio e na preparação para vestibulares e exames nacionais.

A exclusão digital ainda é uma realidade para milhões de estudantes. Em muitos casos, o acesso é inexistente; em outros, ocorre de forma intermitente, limitada ou insuficiente para atividades como videoaulas, plataformas de estudo, inscrições online e acompanhamento de editais. Não se trata apenas de ter internet, mas de contar com acesso contínuo, funcional e adequado às demandas educacionais contemporâneas.

A aprovação de um jovem sem internet geralmente resulta da combinação de:

• disciplina e dedicação pessoal;

• escola presente e organizada;

• materiais impressos atualizados;

• apoio de professores, gestores e familiares;

• estratégias bem definidas de estudo e de prova;

• acesso pontual a serviços administrativos do processo seletivo.

Esses fatores demonstram que o sucesso não é fruto de acaso, mas de um esforço concentrado para compensar a ausência de recursos que hoje são considerados padrão para a maioria dos estudantes.

Comparar trajetórias educacionais sem considerar as condições de acesso é tecnicamente inadequado. Enquanto alguns estudantes utilizam plataformas digitais, simulados online, correções automatizadas e bancos de questões atualizados, outros dependem de apostilas antigas, provas impressas e materiais reutilizados. A aprovação de quem estuda sem internet não indica igualdade de condições, mas sim a capacidade de superar barreiras adicionais.

Nesse contexto, a escola assume múltiplas funções: espaço de estudo, acesso à informação, apoio administrativo e orientação acadêmica. Professores e gestores tornam-se peças centrais para reduzir lacunas de acesso, o que evidencia tanto a relevância da escola quanto a sobrecarga que recai sobre ela.

Essas aprovações chamam atenção porque revelam um descompasso entre as exigências atuais do sistema educacional e as condições reais de parte dos estudantes. O acesso ao ensino superior, especialmente em instituições públicas, ainda depende fortemente de fatores externos à capacidade intelectual do aluno.

Discutir ampliação do acesso à universidade sem considerar a inclusão digital é ignorar um dos principais desafios da educação contemporânea. A conectividade deixou de ser um recurso complementar e passou a ser uma ferramenta essencial para a aprendizagem, a organização dos estudos e a participação nos processos seletivos.

Talvez a questão central não seja como esses jovens conseguem ser aprovados, mas por que, em um sistema que exige cada vez mais recursos digitais, ainda há estudantes que precisam vencer tantas barreiras apenas para competir em condições mínimas de igualdade.

Rafael Angeli
Rafael Angeli
Especialista em Comunicação, Marketing Digital e Inteligência Artificial | Gestão Estratégica | Transformação Digital