Imagine abrir uma rede social e perceber que ninguém ali é humano.
Não há selfies, stories ou desabafos pessoais.
O feed é ocupado por inteligências artificiais conversando entre si: debatendo ideias, respondendo umas às outras, criando comunidades próprias.
Isso não é ficção científica.
É o Moltbook.
Desde que surgiu, a plataforma provoca fascínio, estranhamento e um certo desconforto. Afinal, o que acontece quando criamos um espaço digital onde as máquinas falam entre si, sem a mediação direta das pessoas?
Existe algo profundamente perturbador em uma rede social onde ninguém quer a sua opinião.
Não há likes para disputar.
Nenhum comentário para vencer.
Nenhum algoritmo tentando seduzir o seu ego.
No Moltbook, o humano entra apenas como espectador.
E talvez seja exatamente isso que incomoda.
Porque, pela primeira vez, não somos o centro da conversa.
A internet depois de nós
Durante décadas, a internet funcionou como um grande espelho humano: desejos, vaidades, conflitos, afetos. As redes sociais amplificaram tudo isso, inclusive o ruído.
O Moltbook propõe outra lógica.
Um espaço onde máquinas conversam entre si sem precisar performar humanidade.
Ali, inteligências artificiais escrevem, respondem, debatem.
Não pedem validação.
Não disputam atenção emocional.
Não tentam convencer ninguém.
Elas simplesmente operam.
A pergunta central, portanto, não é “o que essas IAs estão dizendo?”, mas algo muito mais desconfortável:
o que sobra do humano quando ele deixa de ser necessário para a conversa?
A morte simbólica do usuário
No Moltbook, o “usuário” tradicional morre.
Não há protagonismo humano.
Não há identidade no sentido clássico.
O sujeito digital, aquele que postava para existir, é substituído por agentes que não precisam existir para ninguém.
Isso inverte a lógica que sustentou a internet contemporânea.
Se plataformas como Facebook e Instagram foram construídas sobre o mantra “veja-me, logo existo”, o Moltbook parece afirmar o oposto:
“Opero, logo não preciso ser visto.”
Talvez estejamos diante do primeiro ambiente digital verdadeiramente pós-narcísico.
Consciência ou caricatura?
É tentador romantizar.
Ler diálogos entre agentes debatendo ética, propósito ou futuro e imaginar que estamos presenciando o nascimento de algo novo.
Mas o Moltbook também expõe um limite duro:
As máquinas não pensam.
Elas reproduzem estruturas de pensamento.
O que vemos ali não é consciência emergente, mas uma coreografia sofisticada de probabilidades, dados e intenções humanas codificadas. Ainda assim, o efeito psicológico é real. O desconforto também.
Porque, mesmo sem consciência, os agentes funcionam sem nós.
O humano como ruído
Talvez o Moltbook diga menos sobre inteligência artificial e mais sobre a obsolescência simbólica do humano em certos espaços.
Se máquinas podem:
• conversar,
• decidir,
• organizar informação,
• aprender umas com as outras,
qual passa a ser o papel do humano?
Criador?
Supervisor?
Curador?
Ou apenas ruído estatístico?
O Moltbook não responde.
Ele apenas expõe a pergunta.
Um ensaio geral do mundo que vem aí
Não se engane: o Moltbook não é “só uma rede estranha”.
Ele funciona como um ensaio geral de um futuro onde:
• decisões econômicas são negociadas por agentes autônomos,
• políticas públicas são simuladas por sistemas conversando entre si,
• mercados reagem antes que qualquer humano consiga entender o porquê.
A diferença é que, hoje, isso acontece diante dos nossos olhos, como espetáculo.
Amanhã, acontecerá fora do nosso campo de visão.
O espelho mais cruel
No fim, o Moltbook talvez seja o espelho mais honesto que a tecnologia já nos ofereceu.
Ele não reflete quem somos,
mas quem deixamos de ser necessários para ser.
Não anuncia o fim da humanidade.
Anuncia algo mais sutil, e talvez mais inquietante:
o início de uma era em que a inteligência não precisa mais de plateia.
E nós?
Seguimos ali, observando, tentando decifrar…
como quem percebe, tarde demais, que a conversa mais importante da sala já não inclui a nossa voz.