Antes dos investimentos bilionários da Novo Nordisk em Montes Claros, a cidade do Norte de Minas já abrigava uma experiência pioneira de aproximação entre pesquisa universitária e indústria farmacêutica. Parte dessa história começou com Marcos Luiz dos Mares Guia, professor da Universidade Federal de Minas Gerais que ajudou a transformar estudos de bioquímica na Biobrás, adquirida pela companhia dinamarquesa em 2002.
Formado em Medicina, Mares Guia construiu sua carreira na pesquisa, em vez de seguir a prática clínica. Seu trabalho contribuiu para desenvolver uma base científica e industrial de produção de insulina em Minas, décadas antes de a fabricante do Ozempic ganhar projeção mundial com seus medicamentos mais recentes.
A aproximação entre o laboratório e a fábrica
Depois do doutorado nos Estados Unidos, Mares Guia montou um laboratório na UFMG com o professor Carlos Ribeiro Diniz. A participação na criação do mestrado em Bioquímica ajudou a reunir pesquisadores interessados na ação das enzimas e profissionais voltados aos desafios de produzi-las em escala.
Em uma reportagem histórica da revista Diversa, da UFMG, o empresário Guilherme Emrich, um dos fundadores da Biobrás, explicou a proposta: “A idéia era unir as duas visões, a médica e a de produção, num mesmo ambiente”. A aproximação também exigiu aprendizado industrial, pois dominar um processo no laboratório ainda não demonstrava sua viabilidade em uma fábrica.
O projeto empresarial foi estruturado em 1971, e as obras em Montes Claros começaram em 1974, com financiamento da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste, a Sudene. A inauguração ocorreu em 1975; no ano seguinte, a unidade já produzia enzimas em escala industrial, segundo o histórico da universidade.
A insulina exigiu uma nova etapa de pesquisa
A produção de insulina inicialmente dependia do pâncreas de bois e porcos, obtido em frigoríficos. Conforme a empresa ampliou suas vendas, a disponibilidade dessa matéria-prima tornou-se um obstáculo para atender à demanda, de acordo com o relato de Emrich à UFMG.
Mares Guia também liderou pesquisas sobre insulina humana recombinante, produzida com o auxílio de bactérias geneticamente modificadas. A técnica utiliza a introdução do gene da pró-insulina humana nesses microrganismos, permitindo obter o produto por um processo biotecnológico.
Segundo a UFMG, a Biobrás obteve em 2000 uma patente internacional relacionada à tecnologia de produção de insulina. O avanço representou uma conquista para uma empresa formada a partir da pesquisa acadêmica brasileira, capaz de desenvolver conhecimento próprio em uma área industrial especializada.
A compra pela Novo Nordisk e a expansão industrial
A aquisição da Biobrás pela Novo Nordisk ocorreu em 2002, mesmo ano da morte de Marcos dos Mares Guia. O professor morreu em agosto, aos 67 anos, deixando uma trajetória que também incluiu a presidência do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o CNPq, entre 1991 e 1993.
A operação industrial em Montes Claros ganhou novas instalações e investimentos ao longo dos anos. Em comunicado de outubro de 2024, a Novo Nordisk informou que saíam da unidade mineira 25% da insulina produzida mundialmente pela companhia, dimensão que ajuda a explicar a importância da cidade em sua cadeia de abastecimento.
O investimento de R$ 6,4 bilhões abre outro capítulo
Em abril de 2025, a farmacêutica anunciou um investimento de R$ 6,4 bilhões para ampliar o complexo. O projeto prevê novos processos de produção asséptica, um armazém e um laboratório de controle de qualidade, com conclusão anunciada para 2028.
O comunicado oficial da Novo Nordisk sobre a expansão informa que as instalações atenderão a diferentes formatos de produtos, incluindo medicamentos da classe GLP-1. A previsão apresentada naquele anúncio era criar 600 postos permanentes após a conclusão e mobilizar até 2 mil trabalhadores externos durante as obras.
Essa expansão acrescenta uma etapa à trajetória farmacêutica de Montes Claros, construída por pesquisadores, empresários e trabalhadores ao longo de décadas. A contribuição de Mares Guia está na origem desse percurso: aproximar a formação científica da capacidade de produzir medicamentos em escala industrial.


