Em setembro de 2023, Beyoncé subiu ao palco da Renaissance World Tour, em Vancouver, no Canadá, usando um body prateado com centenas de franjas de cristais. A peça, confeccionada exclusivamente para a cantora, havia levado 60 dias para ficar pronta e percorrido milhares de quilômetros até chegar à equipe da artista. Embora o figurino estivesse diante de uma plateia internacional, sua produção aconteceu em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, pelas mãos das profissionais da PatBO, marca fundada pela estilista Patrícia Bonaldi.
A participação da grife em uma das turnês mais comentadas daquele ano representou uma conquista para uma empresa que construiu sua identidade em torno do trabalho artesanal. Entretanto, a trajetória de Patrícia até alcançar o mercado internacional começou em circunstâncias bastante diferentes. Antes de criar vestidos para celebridades, a empresária trabalhou durante três anos em uma fábrica de componentes eletrônicos no Japão, retornou ao Brasil com economias e investiu em uma loja de roupas que quase não conseguiu manter aberta.
A transformação daquele primeiro negócio em uma marca de moda internacional ajuda a compreender como uma atividade tradicionalmente associada à produção artesanal mineira passou a ocupar espaço em um mercado dominado por grandes grifes. No caso da PatBO, a expansão não ocorreu pela substituição do trabalho manual por processos inteiramente industrializados, mas pela valorização de técnicas que exigem tempo, especialização e uma cadeia própria de profissionais.
A experiência no Japão veio antes da primeira loja em Uberlândia
Natural de Uberlândia, Patrícia Bonaldi chegou a estudar Direito antes de decidir investir no próprio negócio. Aos 18 anos, mudou-se para o Japão com o marido, Luiz Humberto, descendente de japoneses. O objetivo era reunir dinheiro suficiente para retornar ao Brasil e iniciar uma atividade empresarial, seguindo um caminho comum entre brasileiros que trabalharam no país asiático durante aquele período.
A experiência esteve distante do universo da moda. Patrícia passou três anos trabalhando em uma fábrica de componentes eletrônicos na cidade de Ushiku-shi, enfrentando jornadas que, segundo relatou posteriormente, chegavam a 14 horas diárias. O trabalho industrial permitiu que o casal acumulasse recursos, mas também colocou a futura empresária em contato com uma rotina de produção marcada por disciplina, repetição de processos e exigência de qualidade.
Em entrevista ao NeoFeed sobre sua trajetória empresarial, publicada em 2023, Patrícia contou que a decisão de empreender surgiu a partir das economias obtidas no exterior. Em vez de investir na compra de um imóvel, o casal resolveu abrir uma loja multimarcas em Uberlândia, apostando na afinidade que ela já possuía com roupas e criação de peças.
O investimento inicial foi de aproximadamente R$ 500 mil. Apesar do capital empregado, a operação não apresentou os resultados esperados e chegou perto da falência. A dificuldade mostrou que o interesse pessoal pela moda não era suficiente para sustentar um negócio baseado apenas na revenda de produtos de outras marcas.
A loja quase quebrou antes de Patrícia começar a vender suas criações
A mudança no modelo de negócio aconteceu quando Patrícia decidiu oferecer às clientes roupas desenhadas por ela própria. A estilista já criava peças para uso pessoal e percebeu que havia interesse por modelos exclusivos, especialmente vestidos destinados a festas e formaturas. Em vez de manter o foco na revenda, começou a desenvolver produtos sob encomenda, utilizando uma estrutura financeira mais simples.
As clientes antecipavam o pagamento necessário para a compra dos tecidos, permitindo que as peças fossem confeccionadas sem a necessidade de manter grandes estoques. Esse formato reduzia parte do risco financeiro que havia comprometido a loja multimarcas, ao mesmo tempo em que possibilitava atender pedidos personalizados e testar a aceitação das criações.
A procura cresceu por indicação das próprias consumidoras, principalmente entre mulheres que buscavam vestidos de festa. A marca Patrícia Bonaldi surgiu em 2002, inicialmente voltada à moda de ocasião e aos acabamentos artesanais que se tornariam uma de suas principais características.
O episódio também ajuda a explicar uma decisão empresarial que acompanharia a expansão da estilista: a criação de produtos com identidade própria, em vez de competir exclusivamente pela revenda de peças disponíveis em outras lojas. O diferencial deixou de ser o acesso a determinadas marcas e passou a ser o trabalho desenvolvido pela própria equipe.
PatBO nasceu para levar o bordado além dos vestidos de festa
Em 2012, Patrícia lançou a PatBO, ampliando sua atuação para categorias como roupas casuais, moda praia e peças destinadas a diferentes ocasiões. A nova marca permitiu explorar um mercado mais amplo sem abandonar os bordados, as aplicações e os acabamentos manuais que já identificavam suas primeiras coleções.
A mudança apresentou um desafio importante. A produção artesanal exige profissionais especializados, e a ampliação do número de peças depende da capacidade de formar equipes que dominem técnicas complexas. Ao contrário de processos facilmente padronizados, determinados bordados precisam ser executados individualmente, com atenção à combinação de materiais, ao acabamento e ao tempo de confecção.
Para enfrentar essa limitação, Patrícia investiu na formação de bordadeiras e costureiras em Uberlândia. O projeto Costurando Sonhos, desenvolvido na cidade, oferece capacitação em técnicas de bordado, costura e aplicação de pedrarias, permitindo que mulheres adquiram habilidades profissionais utilizadas pela indústria da moda.
De acordo com a história institucional da PatBO, a iniciativa de capacitação já alcançou mais de 500 alunos. Parte das profissionais formadas passou a integrar a produção da marca, enquanto outras encontraram possibilidades de trabalho em atividades próprias ou em serviços relacionados ao setor.
A formação de mão de obra se tornou uma condição para a continuidade da expansão. A empresa precisava aumentar sua capacidade produtiva sem perder justamente o elemento que diferenciava suas roupas no mercado internacional. Nesse processo, Uberlândia deixou de representar apenas o local de origem da estilista e passou a concentrar um conhecimento técnico importante para o funcionamento da grife.
A entrada no mercado internacional começou antes de Nova York
A presença da marca no exterior foi construída gradualmente. Em 2004, Patrícia realizou uma venda internacional para a Arábia Saudita, durante sua participação em um evento do setor de moda. A negociação aconteceu quando o negócio ainda estava associado principalmente aos vestidos de festa e antecedeu a criação da PatBO como marca voltada a um público mais amplo.
Nos anos seguintes, a empresa passou a buscar espaço em lojas internacionais e a desenvolver uma estrutura comercial capaz de atender consumidores fora do Brasil. Em 2017, a PatBO ampliou sua operação nos Estados Unidos, mercado que se tornaria um dos principais destinos de sua estratégia de internacionalização.
A expansão ganhou visibilidade em setembro de 2021, quando a marca realizou seu primeiro desfile presencial na New York Fashion Week. A coleção foi apresentada com a participação de modelos como Alessandra Ambrósio, levando à passarela peças que combinavam bordados artesanais, estampas e diferentes referências da moda brasileira.
Naquele mesmo mês, a empresa inaugurou sua primeira loja internacional no Soho, em Nova York, bairro conhecido pela concentração de estabelecimentos de moda e marcas de luxo. A abertura representou uma nova etapa comercial, permitindo que a grife apresentasse suas coleções diretamente ao público norte-americano.
A presença internacional também passou a incluir grandes varejistas de luxo e plataformas especializadas. O crescimento demonstrou que uma empresa originada no interior de Minas poderia competir em um mercado global sem precisar eliminar as características de sua produção artesanal.
O figurino de Beyoncé levou dois meses para ser produzido em Minas
A escolha da PatBO para vestir Beyoncé ocorreu em 2023, quando a equipe responsável pelos figurinos da cantora entrou em contato com a marca para desenvolver peças exclusivas destinadas à Renaissance World Tour. Foram encomendados dois looks, produzidos sob medida, mas não havia garantia de que seriam utilizados nas apresentações.
Um deles foi escolhido para o show realizado em 11 de setembro, em Vancouver. O body prateado reunia bordados feitos à mão e aproximadamente 530 franjas de cristais, elementos que acompanhavam a estética visual da turnê. A produção aconteceu em Uberlândia e exigiu cerca de 60 dias de trabalho.
Patrícia não recebeu confirmação antecipada de que a cantora utilizaria a criação. A estilista descobriu a escolha depois que Beyoncé apareceu com o figurino e publicou imagens nas redes sociais, surpreendendo a equipe responsável pelo desenvolvimento da peça.
O episódio teve repercussão internacional e deu visibilidade ao trabalho das profissionais mineiras envolvidas na produção. A cantora já utilizava figurinos de grandes casas de moda durante a turnê, e a presença de uma marca brasileira nesse conjunto representou uma oportunidade de exposição difícil de reproduzir por campanhas publicitárias convencionais.
A PatBO já havia vestido artistas como Jennifer Lopez, Alicia Keys e Camila Cabello, mas o alcance da Renaissance World Tour colocou a marca diante de um público particularmente amplo. O impacto ultrapassou a divulgação de uma peça específica, reforçando a associação entre a grife e a produção artesanal de alto padrão.
Em 2026, a PatBO continua levando a produção mineira a Nova York
Três anos depois da apresentação de Beyoncé, a PatBO mantém sua presença no mercado internacional. Em setembro de 2026, a marca apresentou a coleção Brasil Esplêndido durante a New York Fashion Week, retomando referências da paisagem brasileira e explorando bordados, transparências e diferentes técnicas de acabamento.
A apresentação também marcou a entrada da empresa em uma nova categoria de produtos, com o lançamento de sua primeira linha de óculos. A diversificação indica que a estratégia de crescimento não está limitada aos vestidos de festa ou às peças artesanais de maior complexidade, embora essas características continuem ocupando posição central na identidade da grife.
Para uma empresa de moda, a ampliação do portfólio pode representar a possibilidade de alcançar consumidores em diferentes faixas de preço e ocasiões de compra. Entretanto, também exige investimentos em desenvolvimento de produtos, fornecedores, distribuição e posicionamento comercial, especialmente quando a marca pretende manter uma identidade reconhecível em categorias distintas.
A história de Patrícia Bonaldi mostra como a internacionalização de uma empresa pode depender tanto de decisões comerciais quanto da capacidade de preservar conhecimentos produtivos locais. O trabalho no Japão forneceu os recursos para o primeiro investimento, a crise da loja multimarcas levou à criação de produtos próprios e a formação de bordadeiras em Uberlândia permitiu ampliar uma produção que depende de técnicas especializadas.
A peça usada por Beyoncé foi uma das expressões mais visíveis dessa trajetória, mas sua confecção só foi possível porque a empresa havia desenvolvido, ao longo de duas décadas, uma estrutura de criação e produção capaz de atender pedidos internacionais sem transferir integralmente sua atividade para os grandes centros da moda. Para o setor de negócios mineiro, a PatBO representa um exemplo de como conhecimento artesanal, formação profissional e estratégia comercial podem se combinar na construção de uma marca com alcance global.


