Um hospital de 17 andares planejado pela Rede D’Or para a Avenida Afonso Pena poderá transformar uma das áreas mais movimentadas do Centro de Belo Horizonte. Além do impacto sobre a paisagem da Praça da Boa Viagem, o empreendimento levanta uma pergunta: como a região absorverá o fluxo diário de pacientes, funcionários, ambulâncias, fornecedores e visitantes?
O projeto será analisado nesta quarta-feira, 5 de agosto, pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte. A 369ª reunião ordinária do colegiado está marcada para as 14h e será realizada por videoconferência. O conselho é responsável por avaliar intervenções em imóveis e conjuntos urbanos protegidos da capital.
O conselho decidirá se o projeto é compatível com as regras de proteção do conjunto urbano da Praça da Boa Viagem. A análise dos impactos sobre o trânsito depende de outras etapas do licenciamento, incluindo estudos submetidos à Prefeitura e à BHTrans.
Hospital terá cerca de 200 leitos e 67 metros
A Rede D’Or pretende construir o hospital na Avenida Afonso Pena, número 1.734, no trecho entre as ruas Alagoas e dos Timbiras. O terreno, anteriormente ocupado por uma subestação da Cemig, fica ao lado da Praça e da Igreja Nossa Senhora da Boa Viagem.
O empreendimento deverá ter aproximadamente 200 leitos e alcançar cerca de 67 metros de altura. São previstos 17 níveis: quatro subsolos e outros 13 pavimentos acima do solo. A proposta utiliza parâmetros urbanísticos destinados a hospitais e a terrenos classificados como áreas de grandes equipamentos de uso coletivo.
A dimensão coloca o futuro hospital em uma escala diferente da maior parte das construções imediatamente próximas à igreja. Também adiciona uma operação de funcionamento contínuo a uma região que já concentra prédios comerciais, escolas, unidades de saúde, igrejas, restaurantes e intenso movimento de ônibus e automóveis.
Parecer técnico é contrário ao projeto
Antes de chegar ao conselho, a proposta recebeu parecer desfavorável da Secretaria Municipal de Política Urbana. A controvérsia começa pela destinação prevista para o terreno desde 2005.
Uma deliberação daquele período estabeleceu que a área da antiga subestação da Cemig deveria ser transformada em espaço público livre, funcionando como uma extensão da Praça da Boa Viagem.
Segundo a análise técnica, a circulação existente no térreo e o mezanino elevado apresentados no projeto continuariam integrados funcionalmente ao hospital. Por isso, não produziriam um espaço verdadeiramente autônomo, aberto e equivalente à ampliação da praça prevista anteriormente.
O parecer também concluiu que a altura, a implantação e o volume da construção alterariam significativamente a composição urbana protegida. Entre os efeitos apontados estão a redução da permeabilidade visual e a interferência nas vistas da Igreja Nossa Senhora da Boa Viagem.
Igreja teme acesso ainda mais difícil à Boa Viagem
O pároco da Igreja Nossa Senhora da Boa Viagem, padre José Júnior, manifestou oposição ao empreendimento. Uma das preocupações apresentadas é justamente a situação do trânsito, já considerada saturada pela comunidade religiosa.
Projeto semelhante já foi rejeitado em 2019
Não é a primeira vez que o Conselho do Patrimônio analisa uma proposta de ocupação para esse terreno. Um projeto anterior foi rejeitado pelo colegiado em 2019.
A nova votação testará se a orientação de transformar a antiga subestação em extensão da praça continuará prevalecendo ou se o município aceitará uma ocupação hospitalar privada no local.
Caso o projeto seja aprovado nesta quarta-feira, o debate deverá migrar para as exigências urbanísticas e de mobilidade. A Prefeitura poderá determinar intervenções nos acessos, criação de áreas de embarque e desembarque, adequações semafóricas e outras medidas custeadas pelo empreendedor.
Se for rejeitado, a Rede D’Or poderá modificar a proposta, apresentar outro desenho ou buscar alternativas administrativas e judiciais, dependendo dos fundamentos da decisão.


